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Escopos 1, 2 e 3: o que as agências de viagens precisam de saber

No contexto da sustentabilidade e da ação climática surgem frequentemente referências aos Escopos 1, 2 e 3 das emissões de gases com efeito de estufa (GEE). Para muitos profissionais do setor do turismo, estes conceitos podem parecer demasiado técnicos ou distantes da realidade do dia a dia. No entanto, compreendê-los é essencial para perceber onde se encontra realmente o impacto climático das viagens e como as agências de viagens e operadores turísticos podem começar a medi-lo e geri-lo. Até porque é muito provável que, num futuro próximo, esta medição venha a tornar-se obrigatória.

O conceito de escopos de emissões foi definido pelo Greenhouse Gas Protocol, o padrão internacional mais utilizado para contabilização de emissões nas empresas. Este sistema organiza as emissões em três categorias, de acordo com o grau de controlo que a empresa tem sobre a sua origem, permitindo perceber não apenas quanto uma empresa emite, mas sobretudo de onde vêm essas emissões.

O Escopo 1 refere-se às emissões diretas, provenientes de fontes que pertencem ou são controladas pela própria empresa. Em muitas atividades económicas podem ter um peso significativo, sobretudo quando existem processos industriais ou utilização intensiva de combustíveis fósseis. No caso das agências de viagens, contudo, a realidade é diferente. Trata-se de uma atividade de conceção, organização e venda de produtos turísticos, baseada em escritórios e sistemas informáticos. Por isso, as emissões diretas tendem a ser muito reduzidas, podendo incluir, por exemplo, os combustíveis utilizados em veículos da empresa.

O Escopo 2 corresponde às emissões indiretas associadas à produção da eletricidade consumida pela empresa. Numa agência de viagens estas emissões estão ligadas sobretudo ao uso de computadores e outros equipamentos informáticos, à iluminação e aos sistemas de climatização. Mesmo somando as emissões dos Escopos 1 e 2, o impacto climático associado ao funcionamento do escritório ou da loja tende a ser relativamente limitado.

Contudo, isto não significa que o setor das viagens tenha um impacto climático reduzido. Pelo contrário. A maior parte desse impacto não está no escritório, mas nas viagens que as empresas organizam ou vendem. É aqui que entra o Escopo 3.

O Escopo 3 inclui todas as outras emissões indiretas que ocorrem ao longo da cadeia de valor da empresa. Na distribuição turística, inclui as emissões associadas aos diferentes componentes de uma viagem, como voos, estadias em hotéis, transportes terrestres, cruzeiros ou atividades e animação. Inclui também emissões relacionadas com a própria atividade da empresa, como as viagens realizadas pelos colaboradores para participação em feiras, reuniões com parceiros ou prospeção de destinos.

Em muitas empresas da distribuição turística, estas emissões podem representar mais de 90% do impacto climático total associado à atividade. Por esta razão, medir apenas os Escopos 1 e 2 pode dar uma imagem muito incompleta da realidade.

Esta lógica aplica-se tanto ao turismo emissor como ao turismo recetivo. Mesmo quando uma empresa não vende voos internacionais, continua a organizar programas turísticos que incluem transportes no destino, visitas guiadas ou excursões. Todas estas componentes geram emissões que fazem parte da cadeia de valor da viagem e que, por isso, também se enquadram no Escopo 3.

É importante notar que uma mesma emissão pode aparecer em diferentes inventários de carbono ao longo da cadeia de valor. As emissões associadas a um voo, por exemplo, são contabilizadas como emissões diretas pela companhia aérea que opera o avião. Podem também ser consideradas no Escopo 3 de uma agência de viagens ou operador turístico, por fazerem parte dos serviços vendidos aos clientes. Quando o passageiro viaja em representação de uma empresa, essas emissões podem ainda ser contabilizadas por essa empresa no âmbito das suas viagens de negócios. Esta abordagem não constitui um erro de contabilização, mas antes uma forma de permitir que cada organização compreenda o impacto climático associado às suas atividades e decisões.

Nos últimos anos, o setor começou a dar passos importantes para melhorar a medição destas emissões. Em Portugal, o projeto de reporte Turismo 360º, promovido pelo Turismo de Portugal, já permite às empresas medir as suas emissões de Escopos 1 e 2, contribuindo significativamente para reforçar a literacia climática no setor.

À medida que a agenda climática evolui, é provável que a atenção se volte também para o Escopo 3. Neste contexto surgem ferramentas como a KlimaLink, uma plataforma europeia que reúne dados de emissões associados a diferentes componentes de viagem, permitindo às empresas estimar de forma mais consistente o impacto climático dos produtos que vendem.

Medir emissões não é um fim em si mesmo. É um instrumento que permite compreender melhor o impacto das atividades turísticas e apoiar decisões mais informadas. Para as empresas da distribuição turística, isso significa olhar para além do escritório e perceber que o verdadeiro impacto climático das suas atividades está nas viagens que colocam no mercado.

Paulo Brehm, consultor de sustentabilidade

Contacte o autor através do email paulo@brehm.pt ou da sua página no LinkedIn

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