O aumento do custo dos combustíveis está a reduzir o orçamento dos portugueses para viajar, mas há exemplos, como o de Espanha, que mostram que o Governo português pode fazer mais para aliviar esse impacto, defende Sónia Regateiro, directora de Operações da Solférias.
Em entrevista ao PressTUR, a Chief Operating Officer do maior operador turístico português analisou os efeitos da subida do preço dos combustíveis no sector, com impacto não só no preço dos voos, mas também no orçamento disponível para viagens.
Se a guerra iniciada pelos Estados Unidos e por Israel contra o Irão continuar, a venda de viagens em Portugal deverá reduzir para todos os destinos, e não apenas para o Médio Oriente e para a Ásia, prevê Sónia Regateiro.
PressTUR: De que forma é que os aumentos das tarifas aéreas provocados pelas sobretaxas de combustível estão a repercutir-se nos clientes?
Sónia Regateiro: Depende muito. As companhias aéreas não são obrigadas a avisar do aumento de combustível com a antecipação que a operação turística precisa. Nós precisamos de 21 dias de antecedência para avisar o passageiro destes aumentos de fuel. As companhias aéreas podem informar-nos na véspera, e aí o encargo seria todo do operador. Isso já é uma parte complicada do nosso trabalho de gestão. E depois há companhias aéreas que aumentam 25 euros, outras que aumentam 75, outras que aumentam 50. Ou seja, muito depende da negociação que cada companhia aérea tem com a compra do fuel, que não conseguimos prever, nem fixar valores. Temos que estar sempre à espera das actualizações da companhia aérea.
PressTUR: E quando chegar à altura, se ainda tiverem os 21 dias, os operadores turísticos ainda têm a opção de informar a agência de viagens…
Sónia Regateiro: A nossa pressão com as companhias aéreas é que nos informem antecipadamente para poder repercutir o custo para o cliente, porque de outra forma não temos como.
PressTUR: Nos charters como funciona?
Sónia Regateiro: É igual. Os voos regulares, nesse aspecto, têm uma vantagem face aos charters. Nos regulares, quando estamos a emitir um bilhete com seis meses de antecedência, garantimos as taxas no momento da emissão do bilhete. Nos charters só podemos fazer a emissão aos 21 dias, porque as companhias aéreas podem aumentar o valor até 21 dias.
PressTUR: E os agentes de viagens?
Sónia Regateiro: Os agentes de viagens ficam com o encargo de informar o passageiro. Não há nenhum encargo financeiro que recaia sobre a agência de viagens. O que recai sobre a agência é a tarefa desagradável de informar o passageiro deste aumento e correr o risco do cliente não aceitar e cancelar a viagem.
PressTUR: Até porque os aumentos são significativos…
Sónia Regateiro: Quando estamos a falar de aumentos na ordem dos 50 a 70 euros por pessoa, se fizermos contas a uma família de quatro, já pode ser um encargo que o passageiro não consiga suportar ou que não esteja disponível para suportar. E ainda mais com o reflexo dos aumentos dos combustíveis na nossa vida do dia a dia, que também vai impedir que as famílias tenham mais dinheiro disponível para as suas férias. O valor do supermercado aumentou, o valor do combustível do carro aumentou, há a questão dos juros das casas, dos empréstimos. Ou seja, tudo aumenta e, associado também a todas as intempéries que tivemos aqui na nossa zona Centro e essa população afectada, também não veio ajudar à aquisição das viagens.
PressTUR: O Governo português pode fazer alguma coisa para salvaguardar o poder de compra dos portugueses…
Sónia Regateiro: O Governo pode sempre fazer mais qualquer coisa do que faz. Temos um exemplo aqui ao lado, de Espanha. É olhar para a Espanha e perceber porque é que eles têm os combustíveis ao preço que têm e porque é que nós temos ao preço que temos. É só atravessar a fronteira.
PressTUR: Seria uma forma das famílias terem mais dinheiro disponível…
Sónia Regateiro: Exactamente. Por exemplo, o Governo poderá pensar que o português não tem dinheiro para ir para o exterior, então vamos alimentar o nosso turismo interno, não é? O nosso Algarve, o nosso Centro, o nosso Portugal, as nossas ilhas, a Madeira, Porto Santo, Açores… Mas não é verdade, porque quem sente na carteira, se calhar não pode fazer uma semana nas ilhas espanholas, mas também não pode fazer no Algarve. O Algarve não é muito mais barato do que as ilhas espanholas. E quem vem do Norte do país tem um carro para conduzir até o Algarve, que não vai a água, não é? Vai a combustível. E se o combustível está caro…
PressTUR: O que é que pode fazer mudar estas perspectivas difíceis?
Sónia Regateiro: Acabar a guerra. Nós tivemos um primeiro trimestre fantástico a nível de vendas. Estávamos com uma projeção muito boa. O fim da guerra, se ocorrer em Maio, ainda nos pode salvar o último semestre. Se continuar por muito mais tempo, se calhar não vamos alcançar os objectivos no último semestre.
PressTUR: A Solférias poderá fechar o ano com números abaixo de 2025…
Sónia Regateiro: Se a guerra não acabar, sem dúvida que vamos fechar com números abaixo do ano passado.
PressTUR: Como possivelmente todo o mercado…
Sónia Regateiro: Só posso falar pela nossa empresa, mas se não houver portugueses com capacidade financeira para comprar viagens, vai afectar todos. Não vai afectar só a Ásia. Vai afectar a Ásia, a América, África, tudo. Se as pessoas não tiverem condições monetárias para viajar não é só para um lado que não vão. Já nem é por destino. É pela própria capacidade dos portugueses a adquirirem férias.
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