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A atmosfera não tem fronteiras

Estamos em plena emergência climática, e, embora a redução das emissões de gases de efeito de estufa seja a prioridade máxima, a realidade é que não conseguimos eliminá-las completamente. Por isso, a compensação daquelas emissões que não conseguimos evitar surge como uma medida necessária, não para «branquear consciências», mas para mitigar o impacto ambiental que estamos a causar. Uma vez ultrapassada a questão da redução, compensar deve ser um ato pragmático e responsável.

Reduzir, calcular e compensar
Talvez antes de tudo, seja importante lembrar que os primeiros passos devem ser reduzir, reduzir, e reduzir, as emissões. Só depois devemos calcular o impacto residual para mitigar e, finalmente, compensar. Esse cálculo deve ser feito de forma credível, e o mais confiável é aquele fornecido por organizações independentes. As companhias aéreas e os GDS frequentemente fornecem indicadores de pegada de carbono, o que é um bom princípio, mas sugiro que pesquisem os resultados de organizações imparciais e independentes, logo, menos sujeitos a legítimas suspeitas.

O que é compensar?
Compensar significa investir em projetos que ajudam a remover ou evitar a libertação de dióxido de carbono (CO₂) e outros gases de efeito de estufa na atmosfera. A compensação pode ocorrer através do investimento em fontes de energia limpa, como solar ou eólica, ou iniciativas que promovam a redução de emissões noutros setores. O objetivo é equilibrar as emissões de CO₂ geradas por atividades humanas (como viajar, por exemplo) com ações que ajudem a mitigar esse impacto, reduzindo o total de CO₂ presente na atmosfera.

Como e com quem compensar?
É essencial escolher organizações com boas práticas e transparência, para garantir que o dinheiro realmente contribui para a compensação. Certificações como a Gold Standard ou VCS Verified Carbon Standard, são fundamentais para assegurar a legitimidade dos projetos em que podemos compensar. Seguramente, não queremos acabar por financiar a compra do último modelo de Tesla para um qualquer espertalhaço. Pessoalmente, gosto da novel plataforma KlimaLink bem como a Atmosfair, organizações transparentes que usam métodos rigorosos e cálculos assentes na ciência. Além disso, a Atmosfair oferece também a possibilidade de compensar com projetos que contribuem para a redução de emissões em países em desenvolvimento, como o Nepal, o Quénia, a Tanzania, Nigeria, Ruanda, entre outros, com iniciativas de biogás e soluções para cozinhas eficientes em locais com escassez de combustíveis e onde a queima de madeira era a única solução.

Reflorestar? Para compensar, não!
As iniciativas de reflorestação são extraordinariamente importantes, mas não devem ser usadas para compensar emissões, pois existem outros projetos que têm um impacto direto, mais rápido e menos arriscado na redução dos gases de efeito de estufa. Imagine-se a reflorestar um terreno, esperar (bem sentado) que as árvores comecem a absorver carbono nos volumes necessários, e que a meio dessa espera há um incêndio que as destrói…  Por outro lado, é também de evitar, com esta finalidade, justificar emissões com iniciativas de responsabilidade social. Obviamente, são todas extremamente bem-vindas e valiosas, mas não devem ser vistas como alternativas à compensação de emissões. Esta deve ser uma medida específica, com base em projetos certificados que realmente mitiguem o impacto ambiental. Projetos de biogás, como os implementados no Nepal, com base em excrementos de gado, permitem que famílias com baixos recursos cozinhem de forma mais eficiente, economizando combustível e reduzindo emissões, além de melhorarem a sua saúde. Outro exemplo é o uso de tecnologias de emissões negativas, como o biochar, que armazena carbono permanentemente no solo, ajudando a combater as emissões de CO₂.

Geografias da compensação?
A compensação deve ser feita onde for mais eficaz. A atmosfera não tem fronteiras, e uma emissão de um carro em Portugal afeta tanto o ambiente local como global. Da mesma forma que reduzir emissões a partir de África também nos beneficia. Há sempre quem prefira compensar no «quintal», mas há que ser objetivo e muito pragmático. Investir em projetos instalados em países em desenvolvimento, é quase sempre mais eficaz financeiramente, dado que o valor do dinheiro nestes países tem maior impacto. A compensação feita em locais distantes pode ser uma opção mais racional, tanto do ponto de vista ambiental como económico. Basta imaginar o que consegue ao investir 100 Euros em Portugal e o mesmo valor no Ruanda…

Em conclusão…
Compensar emissões não é uma solução perfeita, mas é uma ferramenta pragmática para lidar com o que não podemos evitar. Devemos fazê-lo com responsabilidade, em projetos certificados e com impacto real na mitigação das alterações climáticas. Só assim podemos, de facto, contribuir para um futuro mais sustentável.

Paulo Brehm, consultor de sustentabilidade

Contacte o autor através do email paulo@brehm.pt ou da sua página no LinkedIn

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