A subida dos preços dos pacotes turísticos provocada pelo aumento do preço do combustível de aviação pode levar a cancelamentos de reservas, mas para os operadores turísticos é “incomportável” absorver esses aumentos, defende o director Comercial da Soltrópico.
Em entrevista ao PressTUR, Daniel Graça afirmou que “qualquer operador turístico que tente absorver estes aumentos vai ter seguramente um ano recorde de prejuízos”.
PressTUR: Como está a evolução do preço dos pacotes com a subida do preço do combustível?
Daniel Graça: É algo que nos preocupa muito. O preço do jet fuel estava estável e em pouco tempo subiu muito, praticamente para o triplo. Começámos a sentir aumentos nas operações de Abril e de Maio. O jet fuel está a descer, mas não ao ritmo que subiu. Neste momento temos aumentos para Junho, ligeiramente mais baixos do que tivemos em Abril e Maio, mas a diferença não é muito grande. São aumentos significativos. Isto preocupa-nos muito porque condiciona a venda para o futuro. Para novas reservas nós já aplicamos o combustível ao preço actual. Temos de informar as agências de que há um novo preço a pagar, e isso causa constrangimentos com a agência e com o cliente. Apesar de estar legislado e de podermos aumentar o preço até 8%, é sempre algo muito difícil de aceitar pelo consumidor final. A verdade é que nós não temos como absorver estes aumentos. Qualquer operador turístico que tente absorver estes aumentos vai ter seguramente um ano recorde de prejuízos, porque é incomportável.
PressTUR: Como é que as agências e os clientes estão a reagir a estes aumentos?
Daniel Graça: Até aos 8% o cliente não tem grande hipótese de dizer que não. É o que está legislado. Acima dos 8%, há casos em que o cliente quer cancelar e nós cancelamos, e há casos em que tentamos negociar com o cliente para que o aumento não seja tão elevado, para ver se não cancela a reserva. Vamos gerindo caso a caso. Mas não tem havido cancelamentos, porque na maior parte dos casos o aumento do PVP (preço de venda ao público) não tem sido superior aos 8%.
PressTUR: E para o futuro…
Daniel Graça: Não se sabe. Vamos ver se Trump resolve estabilizar as coisas. O indicador diz-nos que o jet fuel está a descer a um ritmo muito, muito baixo, mas não sabemos. Preocupam-nos as notícias, tudo o que se fala de eventuais condicionamentos do uso do jet fuel na aviação comercial, que poderá afectar ou não a nossa actividade e limitar as companhias aéreas a fazer determinados voos. Para já, tudo OK, mas não sabemos e estamos preocupados.
PressTUR: O problema não é só o preço do combustível, é se existe suficiente para as operações previstas…
Daniel Graça: Exactamente. Em determinado momento começou a falar-se disso, vê-se muito nas notícias. Fala-se muito de questões relacionadas com a União Europeia, com limitação de voos, por questão de não haver jet fuel suficiente. Para já, temos a garantia de que está tudo OK, mas não sabemos se pode mudar do dia para a noite.
PressTUR: Quais são os destinos mais procurados para este Verão?
Daniel Graça: Muito Cabo Verde, muita Tunísia, até porque este ano também aumentámos a capacidade para Monastir. E temos os voos para Djerba. E, depois, Porto Santo, Saïdia. Este ano apostámos também no Senegal, que foi uma aposta muito boa. Praticamente já vendemos todos os lugares que comprámos em risco à TAP.
PressTUR: Sentiram algum impacto negativo das notícias sobre os turistas britânicos que faleceram depois de terem estado de férias em Cabo Verde?
Daniel Graça: Não. Estamos a falar de muito poucos casos em tantos passageiros britânicos. Nem demos muito valor. Não temos tido problemas com clientes. É um destino super seguro para viajar.
PressTUR: A subida dos preços afectou Cabo Verde?
Daniel Graça: Está tudo mais caro. Quando recebemos os aumentos dos combustíveis, nós actualizamos logo no site para novas reservas. Todos os produtos estão caros. A Boa Vista, o Sal. Talvez Saïdia esteja mais dentro daquilo que era o passado. Mas é normal.
PressTUR: E o poder de compra também está mais reduzido, porque não é só o preço do jet fuel que está mais alto. É o preço dos alimentos, do combustível…
Daniel Graça: Exactamente. Essa parte até joga a nosso favor no sentido da percepção do porquê de estarmos a aumentar [o preço dos pacotes turísticos]. As pessoas, quando vão meter gasolina também sentem na carteira que realmente está tudo muito mais caro. É mais fácil as pessoas entenderem que isto não é um aumento só porque sim, mas que é um aumento real. Mas sim, a verdade é que está muito difícil para toda a gente e acredito que talvez as férias não estejam no topo da prioridade das pessoas nesta fase. E não nos podemos esquecer do que aconteceu no início do ano no Centro do país, que devastou ali a zona de Leiria, Marinha Grande e por aí fora. As pessoas dessa zona seguramente não estão a pensar em férias porque têm outros prejuízos para pagar. Falei com uma agência de Leiria que me disse que está com quebras significativas e que muito provavelmente tem a ver com isto. As pessoas têm telhados para arranjar, têm prejuízos nos seus terrenos, nas suas empresas e realmente é um ano difícil.
PressTUR: Ainda assim estão com procura…
Daniel Graça: Não nos podemos queixar tendo em conta que os números estão semelhantes ao ano anterior, mas achamos que era um ano com muito mais potencial do que aquilo que poderá ser.
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Se há promoções de última hora é porque há excesso de oferta – Daniel Graça, Soltrópico
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