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Hoteleiros portugueses apostam em mercados longínquos para aumentar a estada média

Sem espaço para crescer no Aeroporto de Lisboa e com novos hotéis a abrir, os hoteleiros portugueses estão empenhados em atrair turistas de mercados longínquos, com uma estada média mais longa. O desafio é complexo, mas há oportunidades a explorar, avançaram ao PressTUR cinco empresários do sector.

A estada média nos estabelecimentos de alojamento turístico em Portugal está em queda desde 2022. No ano passado fixou-se em 2,52 noites, depois de 2,54 em 2024, 2,57 em 2023 e 2,63 em 2022, de acordo com os dados do INE.

Os hoteleiros estão mais atentos a este indicador porque há pouca margem para crescer em número de visitantes, uma vez que a principal porta de entrada no país, o Aeroporto de Lisboa, está no limite da sua capacidade.

Com limitações na capacidade aérea e com mais unidades hoteleiras a abrir, o país terá “as mesmas pessoas distribuídas por mais hotéis”, indicou Bernardo Trindade, presidente da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), na semana passada. Até 2028 estão previstos 45 novos hotéis em Lisboa e 35 novos hotéis no Porto, indicou o dirigente, também administrador dos hotéis PortoBay.

Desta forma, “temos que aportar mais valor a cada uma das pessoas que passa por Portugal”, defendeu Bernardo Trindade em declarações ao PressTUR. “Se temos a ocupação limitada por causa do aeroporto, se temos o preço estabilizado em função de uma concorrência mais forte, onde é que temos que ser positivos? Claramente na estadia média”.

Para aumentar o tempo de permanência, o executivo defende que é necessário investir nos mercados longínquos, razão pela qual exige ao Turismo de Portugal a nomeação, com urgência, de novos delegados nesses mercados. Clique para ler: Novos delegados do Turismo de Portugal nos EUA, Japão e Coreia serão nomeados “rapidamente” – Carlos Abade.

Premiar estadias mais longas

Gonçalo Rebelo de Almeida, administrador do grupo Vila Galé, partilha da mesma opinião. “Os mercados mais longínquos têm tendência a ficar mais tempo, porque a viagem é mais longa e o custo da passagem é mais caro”. Nesse sentido, é necessário “reforçar a aposta” e “dar mais notoriedade a Portugal em alguns destes mercados”, disse ao PressTUR.

Além do reforço da promoção, são necessários voos para captar estes visitantes, e “há um défice nas ligações aéreas à Ásia”. Há poucos voos directos, mas há muitas ligações via Médio Oriente, com companhias como a Qatar Airways, Etihad, Emirates e Turkish Airlines, exemplificou o empresário.

Para criar ligações directas entre Portugal e a Ásia, é preciso “alguma habilidade” e “começar a convencer as companhias aéreas a entrarem pelo Porto, e a começarem a chegar a Portugal via Porto e não via Lisboa”, defendeu Gonçalo Rebelo de Almeida.

Outra forma de impulsionar o tempo médio de permanência é promover que “há muita coisa para ver nos destinos”, “passar a mensagem de que um, dois ou três dias é curto, porque há muita coisa para ver”, acrescentou o administrador da Vila Galé.

Por outro lado, os hotéis “podem criar incentivos para premiar as estadias mais longas face às estadias mais curtas, com preço, com algumas ofertas adicionais”, indicou Gonçalo Rebelo de Almeida.

Ceder preço para estadias longas, sem perder margem

Miguel Proença, CEO do Grupo Hoti Hotéis, também defende que “fará sentido ceder um pouco de preço médio para conseguir dar benefícios a quem queira ficar mais tempo”, mas sem perder margem.

“Numa operação normal de estadias longas há custos que deixamos de ter e, portanto, conseguimos manter a margem de cada estadia”, indicou Miguel Proença. “Há todo um conjunto de processos administrativos e associados até aos próprios processos operacionais dentro de cada hotel que fazem com que uma estadia de uma semana não tenha os mesmos custos de uma estadia de um dia ou dois dias”, detalhou o executivo.

Não se trata de diminuição de preço para atrair procura, sublinhou Miguel Proença. “O que está em debate é uma diminuição do ritmo de crescimento e uma estabilização dos fluxos. O trabalho que tem sido feito ao longo de todos estes anos para a valorização do produto está cá. O produto continua a ser valorizado, não estamos a entrar em crise, não é essa a perspectiva, e, portanto, não há razões para entrarmos, pelo menos de uma forma transversal, em diminuições de preços”.

“É apenas uma questão de tentarmos optimizar percebendo que já não é tão fácil ir buscar novos recursos. Trata-se de, aos poucos, ir afinando a capacidade de captação, optimizando a capacidade de venda e, em face disso, optimizando a gestão”, sublinhou o CEO do Grupo Hoti Hotéis em declarações ao PressTUR.

Quebra da estada média resulta de uma mudança global

Alexandre Marto Pereira, CEO da United Hotels of Portugal, avisa que aumentar a estada média é um grande desafio. “É uma espécie de solução matemática” para compensar a incapacidade de trazer mais turistas, mas “não é nada fácil”, porque a diminuição do tempo médio de permanência resulta de uma mudança de mentalidade dos viajantes. Com as low cost e com a inovação tecnológica, que passou a permitir reservar na hora, “passou a haver toda uma nova forma de fazer férias, ou melhor, momentos de lazer, já não são bem férias”.

“Temos mesmo um problema grave. Claro que temos de o combater, mas não creio que consigamos fazer uma revolução. Trata-se de uma alteração de mentalidade global. As pessoas estão habituadas a fazer viagens curtas, não é só aqui, é noutros territórios, portanto vai ser muito difícil”, sublinhou o executivo.

“Um dos esforços necessários é captar fluxos de mercados mais longínquos, que, por natureza, querem ficar mais noites”, mas “também é difícil, porque implica voos directos, e voltamos ao mesmo problema” da falta de capacidade no Aeroporto de Lisboa. Nesse sentido “temos que tentar ver o Aeroporto de Madrid, por exemplo, como uma espécie de um aeroporto nacional também”, indicou Alexandre Marto Pereira.

Para o CEO da United Hotels of Portugal, os mercados asiáticos devem estar no centro da estratégia de promoção. “Em primeiro lugar, são a origem mundial de turismo que mais vai crescer nas próximas décadas, e, em segundo lugar, porque estes mercados longínquos têm um valor acrescentado e uma estada média muito superior”.

Para ilustrar o peso dos mercados asiáticos, Alexandre Marto Pereira destacou que os asiáticos já superam os americanos em número de peregrinos registados no Santuário de Fátima. Os americanos representaram 20% do total de peregrinos enquanto os asiáticos, 22,3%.

Madeira, nº1 em estada média

 O PressTUR também falou com Roberto Santa Clara, CEO do grupo Savoy Signature, que tem a maior parte dos seus hotéis na Madeira, a região do país com o tempo médio de permanência de turistas mais longo, com 4,58 noites em 2025, depois de 4,62 em 2024, 4,58 em 2023, e 4,71 em 2022.

Roberto Santa Clara sublinhou que “a estada média é bastante positiva”. No entanto, com a abertura de “outro tipo de acessibilidades [para a Madeira], o tipo de perfil de turista tende a baixar”. Por isso, o executivo defende o investimento na captação de mercados com “segmentos de valor”.

“Alguns mercados como os Estados Unidos, Canadá, Brasil e os próprios nórdicos podem vir a ter um contributo muito positivo na consolidação dos destinos com aumentos de estada média. É sem dúvida um dos caminhos a seguir”, sublinhou o CEO da Savoy Signature.

A Madeira também foi a região do país com o maior aumento de preço médio por quarto ocupado (ADR na sigla em inglês) no ano passado, com um crescimento de 14,5% em relação a 2024, para 125,1 euros, de acordo com os dados do INE.

A Savoy Signature teve “uma performance muito boa” a nível de preço médio, indicou Roberto Santa Clara, garantindo que não prevê adequar a “proposta de valor” nos próximos anos. “Pelo contrário, vamos valorizar a experiência e valorizar o produto”, acrescentou.

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