Um estudo efectuado pela NetVoucherCodes, site especializado em ofertas de voucher, indica que 89% das companhias aéreas cobra, pelo menos, um extra aos seus passageiros, uma percentagem que aumenta para 97% na Europa.
Um estudo da NetVoucherCodes, citado pelo The Guardian, indica que 89% das companhias aéreas cobra “ancillaries”, extras, como escolha de assento, check-in de bagagem de mão ou de porão, ou seguros, considerados receitas complementares que não estão mencionadas no preço anunciado. O estudo indica ainda que na Europa, a percentagem de companhias que cobra pelo menos um ancillaries aumenta para 97%.
Sem surpresa, a Ryanair é a companhia que cobra mais por extras, sendo que este estudo vem no seguimento da história de um casal de idosos, Ruth e Peter Jaffe, que imprimiu os bilhetes de regresso ao invés dos bilhetes de ida num voo da Ryanair, e pagaram 55 libras por pessoa, cerca de 64 euros, para a impressão dos dois bilhetes no balcão da companhia, num total de 110 libras, cerca de 129 euros.
Martyn James, especialista em direitos do consumidor, afirmou à BBC, citado pelo The Guardian, que “é muito injusto” penalizar as pessoas por um erro inocente, e que é difícil resolver estes assuntos com as companhias sem estar disposto a recorrer a um tribunal de pequenas instâncias. “E nada disto garante compensação e muita gente não tem tempo ou energia”, acrescentou o especialista, afirmando ainda que “se mais pessoas se queixassem sobre a faltar de transparência, mais companhias aéreas vão começar a reconsiderar estes custos extra”.
James vai mais longe e afirma que há anos que as companhias aéreas “têm estado a retirar coisas que costumavam ser gratuitas e estão a cobrar por elas”, o que também contribuiu para esta história do casal idoso gerar tanta indignação, porque as pessoas estão “zangadas porque também já foram afectadas por estes custos, seja nas tarifas de bagagem, ou pagar para se sentarem ao lado da família, ou outra coisa qualquer”.
A Ryanair, por sua vez, afirmou em comunicado que “todos os passageiros que viajam com a Ryanair concordam em fazer o check-in online antes da chegada ao aeroporto de saída e todos os passageiros recebem um email/SMS que os relembra para o fazerem com 24 horas de antecedência. Lamentamos que estes passageiros tenham ignorado o e-mail de aviso e não tenham feito o check-in online”.
Em resposta ao comunicado da companhia, a filha do casal, responsável pela publicação original, afirmou que “eles [o casal] estiveram no vosso website a tentar fazer o check-in, o vosso site perde mais tempo a vender extras, mesmo no check-in, do que a fazer o check-in às pessoas”.
O The Guardian exemplifica que um voo da companhia low cost entre Londres-Gatwick e Alicante, em finais de Setembro, tem um preço inicial de 37 libras por voo, no entanto, o custo de uma peça de bagagem de porão é de 36 libras por percurso, se for registada online, ou de 60 libras por percurso, se for registada no aeroporto. O transporte de crianças de colo têm o preço de 25 libras por percurso, sendo que a companhia permite duas peças de equipamento para o bebé, no entanto, uma terceira peça ou um carrinho não desdobrável, tem o custo extra de 15 libras por percurso.
Para viajar junto de um membro da família, ou de um amigo, a companhia cobra 5 libras por pessoa, por percurso, totalizando 20 libras numa viagem de ida e volta, sendo que se a opção de escolha de assento for feita depois da reserva, o preço pode aumentar até às 13 libras por percurso. Para transportar uma bicicleta, a companhia cobra 75 libras por percurso, e se perder o seu cartão de embarque, o custo do mesmo é de 20 libras.
A NetVoucherCodes analisou uma série de rotas das principais companhias aéreas e calculou o custo dos ancillaries como bagagem de mão, 20 kg de bagagem de porão, selecção de assento, fast tracking, seguro, e wifi a bordo.
Esta análise concluiu que o custo extra médio que os clientes pagam em companhias aéreas internacionais é de 26,09 libras, sendo que em companhias europeias, esse valor médio aumenta para 45,43 libras, e para companhias norte-americanas, sem surpresa, o valor aumenta ainda mais, para 61,2 libras.
No caso da Ryanair, um voo do Reino Unido para a Irlanda, com o preço inicial de 18,39 libras, torna-se num gasto de 80 libras se forem adicionados extras como bagagem de porão (22,49 libras), uma peça de bagagem de mão (14,5 libras), 8 libras para selecção de lugar, e 18,39 pelo seguro. A companhia afirmou ao The Guardian que não tem custos escondidos, sublinhando que “o voo do Reino Unido para a Irlanda avaliado em 18,39 libras é de um valor fantástico. Todos os produtos mencionados são opcionais, que o consumidor pode escolher adicionar ou não adicionar”.
A Wizz Air segue-se à low cost irlandesa, sendo que um voo entre o Reino Unido e a Hungria, com preços a começar nas 34,29 libras, acrescendo 93,56 libras em ancillaries. A companhia também afirmou que os custos não estão escondidos, mas sim destacados, “somos uma companhia ultra-low-cost e para manter as nossas tarifas baixas, oferecemos extras opcionais com um custo adicional, como bagagem de porão ou assentos preferenciais”.
Martyn James afirma que que a cultura de “ancillaries” tem aumentado dramaticamente e relembra que as companhias já foram impedidas de algumas práticas muito semelhantes, “costumavam cobrar por pagamentos com cartão de débito ou de crédito”, relembrou o especialista, “mas como é que se efectuam compras online? Foram instruídas a não continuar com esta prática”.
“Quando estas fontes de receitas foram encerradas, olharam para o processo e pensaram, o que é que podemos cobrar mais?”, rematou o especialista.
Martyn James sugeriu que os sites de comparação de voos incluam os custos extra no preço final desde o início e sugere que sejam atribuídos mais poderes à Autoridade de Aviação Civil, para esta fazer com que as companhias apresentem estes custos extra no preço anunciado.
“Estou a ter de dizer às pessoas para serem cínicas e a não partirem do princípio que um negócio é um bom negócio”, afirmou o especialista, acrescentando ainda que, por vezes, um voo mais caro pode ser uma melhor opção, se tiver tudo incluído.
Também acrecentou que os passageiros têm de ser realistas sobre a quantidade de bagagem que vão transportar, e que devem informar-se sobre as características das malas de cabine permitidas, aconselha a “verificarem tudo e a irem online ter uma ideia do custo do assento e da bagagem de porão, o que dá uma ideia do mínimo de tarifas que vão ter de enfrentar no final”.
O especialista defende também que os passageiros têm de ter mais apoio, particularmente as pessoas mais vulneráveis e os idosos, “se estamos a tornar as coisas mais baratas para as companhias aéreas ao fazer todo o check-in online, porque não ter alguem nos balcões de self-check-in? Porque não ter alguém que possa imprimir documentos?”.
O jornal britânico também falou com Katy Maclure, do website Jack’s Fight Club, que monitoriza tarifas aéreas com as opções mais baratas, que afirmou que os clientes têm de estar mais consientes destes custos extra, visto que mais companhias aéreas estão a utilizar estas tácticas, “tornou-se comum ao longo dos últimos anos, e as companhias aéreas de bandeira estão a deixar de incluir bagagem de porão”.
Maclure mencionou a Lufthansa e a British Airways, que incluem custos associados a bagagem de porão em alguns destinos, enquanto que poucos, como a Emirates, fazem o contrário e incluem tudo no preço inicial.
Em Junho, o primeiro-Ministro britânico Rishi Sunak requeriu uma revisão desta prática de manipulação de preços através da qual as companhias aéreas escondem o custo real dos seus produtos e serviços anunciados através da cobrança de extras.




