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Zanzibar: das especiarias à rota do mercado português

Há séculos que Zanzibar vive da sua capacidade de receber o mundo. Hoje, a antiga ilha das especiarias procura equilibrar crescimento turístico, preservação cultural e desenvolvimento económico.

O calor chega antes da terra. Ainda o avião roda sobre o Índico e já a humidade se cola à pele. No pequeno aeroporto internacional de Zanzibar, a fila para o controlo da imigração avança ao ritmo da filosofia local do “Pole Pole”. Sem pressa.

Neste arquipélago da Tanzânia, a hospitalidade serve-se na língua do Rei Leão. “Jambo”, em suaíli, quer dizer “olá”. Acompanha o carimbo no passaporte, volta a ouvir-se à saída do terminal, repete-se no transfer, na receção dos hotéis, na praia ou nos mercados.

Cartão de visita da ilha, é a primeira palavra do tema que liga os locais a quem os visita. “Jambo, Jambo Bwana, Zanzibari yetu, Hakuna Matata”, cuja tradução livre é “Olá, olá senhor. Em Zanzibar não há preocupações”, canta-se, com variações locais, por toda a África Oriental.

“É assim que queremos ser vistos no mundo. Um povo que gosta de receber e que, cada vez mais, precisa de receber turistas”, traduz, num português aprendido nas lides do comércio moçambicano, Suleiman, o guia turístico local que acompanhou a incursão promovida pela Solférias pela ilha das especiarias.

Motor da transformação

“Antigamente, mesmo estudando, não encontrava emprego. Saí em 2012 sem pensar que, dez anos depois, o português seria a minha ferramenta de trabalho”, relata Suleiman. “Recebo portugueses, brasileiros, outros africanos, também. O turismo passou a ser a base da nossa economia. Hoje, a pensar num futuro bom, os jovens vão estudar turismo, mas naquela altura o diploma só me serviu para ir para Moçambique”.

Paradigmática, a história resume o que os andaimes e novas construções evidenciam, de norte a sul da ilha. Mesmo com a pandemia a assombrar o crescimento, Zanzibar passou de cerca de 132 mil visitantes por ano, em 2010, para 736 mil em 2024, segundo os dados oficiais.

Um aumento de 450% em 14 anos, num cenário que, aos dias de hoje, gera perto de 100 mil empregos e atraiu mais 4,5 mil milhões de dólares em investimentos, espalhados por hotéis, novos terminais de aeroporto, estradas e infraestruturas.

Com três terços da economia às costas, o turismo é o maior motor da transformação local, apesar de mais de metade dos 2 milhões de habitantes viver abaixo da linha da pobreza.

Italianos, alemães e franceses lideram o ranking dos visitantes. Depois da Polónia e do Reino Unido, Portugal envia entre três a quatro mil turistas por ano.

Só falta pegar Portugal

“Ainda não pegou. Vendo aos poucos clientes que já conhecem e dizem maravilhas ou àquele tipo de cliente que já viajou o mundo todo e está à procura de um novo destino”, comenta Sofia Santos da algarvia Viagens a La Carte.

“Diria que ainda não pegou”, repete a diretora comercial da TravelSquare Margarida Lopes. “Não é um destino novo, mas continua a ser um destino proposta. Daqueles que oferecemos a clientes que já estiveram em todas as ilhas das Caraíbas, nas Maldivas, Seychelles, antigamente Bora Bora. Raramente alguém nos entra na agência com Zanzibar na cabeça. Não por ser um destino fraco, antes pelo contrário. É desconhecimento”.

“O mercado português não tem uma noção do quão aquilo está virado para o turismo. Há países que entram muito mais rapidamente na cabeça das pessoas, como Cabo Verde, Canárias”, sublinha o Guru das Viagens, Tiago Bernardes.

Responsável da ClickViaja, Nuno Mendes concorda e acrescenta que, ao contrário de outros destinos de praia, “Zanzibar tem de ser explicada”.

CEO da ClickViagens, António Gonçalves vai mais longe. “Quem vem para Zanzibar tem que pensar que vem para a África. Uma África que não é rica, que ainda atravessa um processo de  franco desenvolvimento e, como noutras regiões, é uma África muçulmana, com hábitos e culturas que transcendem alguns outros destinos conhecidos pela praia e pelos resorts”.

Para lá do postal

Na sua grande maioria estreantes nesta região insular da Tanzânia, os agentes que falaram ao PressTUR chegaram com as dúvidas do costume: as praias são tão bonitas como nas fotos? Os hotéis estão à altura do cliente português? A ilha é segura?

A “agradável surpresa” foi resposta comum. “Há muitos tipos de hotéis — praia, piscina, luxo, boutique, simples. É muito completo. O serviço supera qualquer expectativa e alinha-se com os altos padrões do turismo mundial”, elogia Tiago Bernardes. “Não é só praia. Não é só resort. É um destino de experiência, de autenticidade africana que não fica aquém nem do turismo de luxo, nem do turismo mais sustentável e mais virado para a cultura local”, corrobora Nuno Mendes, sobre a diversidade da oferta hoteleira.

“É ver para crer e até para perceber porque é que alguns clientes voltam com esta experiência no coração. Perceber a questão das marés. Se são tão baixas como dizem ou se é possível passar um dia inteiro na praia”, comenta Margarida Lopes.

Com estadia marcada, de norte a sul, e a oportunidade de inspecionar a maioria dos hotéis incluídos nos pacotes da Solférias, os agentes foram para lá do postal. Caldo de culturas, a geografia de Zanzibar desdobra-se em ritmos distintos.

No norte, em Nungwi e Kendwa, o mar é calmo e as marés são menos pronunciadas. Aberto em janeiro, o Riu Swahili vem completar a paisagem de resorts à beira-mar da cadeia que já detém o Riu Palace e o Riu Jambo. É a Zanzibar dos catálogos e das redes sociais com serviço all inclusive e discoteca nas proximidades.

No leste, o oceano impõe outro ritmo. Durante várias horas por dia a água recua centenas de metros, expondo um vasto areal onde pescadores e turistas partilham o mesmo espaço. É a costa do kitesurf, dos nómadas digitais e dos hotéis mais recentes. No sul, o turismo continua a coexistir com aldeias piscatórias.

O mapa hoteleiro espelha não só o contínuo investimento em infraestruturas viradas única e exclusivamente para o turismo como a aposta em diferentes segmentos.

A oferta vai do Indigo Beach, em Bwejuu, por 1.339 euros, ao Lux Marijani, em Pwani, por 3.965 euros. Há o Bluebay Beach Resort, aberto nos anos 90, e o JAZ Amaluna, inaugurado em soft opening, em março, ainda a afinar os detalhes.

“Foi reforçar a certeza de que Zanzibar é mais do que a brochura mostra. Mais do que hotéis, estamos a falar de experiências. As excursões de barco, o mergulho, o contacto com os locais e sobretudo o poder do acolhimento deste povo”, resume o tour leader desta viagem e responsável pelas reservas de longo curso da Solférias, Pedro Botelho.

No catálogo do operador turístico desde 2023, Zanzibar continua a ser uma aposta em construção, com a operação a incluir atualmente pacotes de praia e combinados com Istambul e Dubai.

Arte de receber

Focada em ultrapassar a meta de 1 milhão de visitantes ainda este ano, Zanzibar, que durante séculos recebeu persas, árabes, portugueses, omanitas, indianos, britânicos, continua a especializar-se na arte de receber o mundo.

Poucos lugares no Índico condensam tantas influências num território tão pequeno. A diferença é que, hoje, os navios carregados de especiarias e mão de obra escrava deram lugar aos aviões carregados de turistas.

A pressão sobre a ilha é visível em todos os setores. Em 2025, a economia expandiu-se 7,0%, com o turismo a liderar o crescimento. Só nos primeiros dois meses de 2026, chegaram mais de 187 mil turistas. Em dezembro de 2025, a ocupação de camas atingiu perto de 89%, e cadeias internacionais como Hilton, TUI, Anantara e ENVI Lodges entraram ou anunciaram projetos de expansão na ilha.

Oficialmente, o governo regista 136 novos projetos de investimento em 2025, num valor superior a 1,89 triliões de xelins, e uma carteira de 6,3 mil milhões de dólares em projetos estratégicos.

Em Stone Town, o preço da transformação é visível. A cidade histórica, classificada como Património Mundial da UNESCO desde 2000, celebra este ano o 25.º aniversário da sua inscrição. A mesma organização que a distinguiu anunciou, em março de 2025, o reforço da parceria com o arquipélago para acelerar a restauração dos edifícios.

Em madeira, os andaimes sobem pelas fachadas de coral, escondem varandas centenárias e ocupam ruas inteiras. Em fevereiro de 2026, o governo assinou uma parceria público-privada de 12 milhões de dólares para restaurar vários locais históricos em Stone Town.

“Estão a tirar a população da cidade. Para que aqui mesmo seja uma cidade da história”, relata-nos Suleiman sobre os custos do desenvolvimento em curso.

Motor económico e da contradição, o turismo financia a preservação do património e acelera a transformação das comunidades. Zanzibar não escapa à regra.

Ver também: Istambul – Zanzibar: o combinado da Solférias que junta três mundos

O PressTUR viajou a convite da Solférias

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