O Turismo de Berlim está a promover uma semana dedicada à liberdade, a Berlin Freedom Week & Conference, uma iniciativa que contrasta com as acções das autoridades locais em relação a manifestações, que já mereceram críticas até do comissário para os Direitos Humanos do Conselho da Europa, Michael O’Flaherty.
A organização deste novo fórum internacional anunciou que vai receber oradores internacionais apoiantes da liberdade e garantiu uma programação para os visitantes da cidade e os seus habitantes.
O autarca de Berlim, Kai Wegner, é o patrono do evento, de acordo com um comunicado da VisitBerlin.
“Berlim é a cidade da liberdade”, garante Kai Wegner, citado na nota de imprensa, acrescentando: “no 36º aniversário da queda do Muro, a nossa cidade está mais uma vez a enviar uma poderosa mensagem de apoio à liberdade, à paz e à democracia”.
O autarca diz ainda que, com este evento, a cidade “torna-se num fórum internacional para aqueles que querem lutar pela liberdade – pessoas de extraordinária coragem que defendem a sua visão de um mundo livre e democrático”.
As afirmações de Kai Wegner revelam um contraste gritante com as acções das autoridades locais em relação a manifestações. O próprio comissário para os Direitos Humanos do Conselho da Europa, Michael O’Flaherty, manifestou preocupações com a forma como Berlim está a lidar com os protestos contra a guerra em Gaza e como isso está a afectar a liberdade de expressão e o direito de reunião pacífica. Para ler na “Deutsche Welle” clique aqui.
Michael O’Flaherty enviou uma carta ao ministro alemão do Interior, Alexander Dobrindt. “Escrevo em relação às medidas tomadas pelas autoridades alemãs que restringem a liberdade de expressão e a liberdade de reunião pacífica das pessoas que protestam no contexto do conflito em Gaza”, diz o comissário.
Para ler a carta clique aqui.
As acções das autoridades alemãs têm vindo a ser denunciadas em vários meios de comunicação. A televisão alemã “Deutsche Welle” dá conta de que em Abril de 2024, a polícia alemã interrompeu uma conferência pró-Palestina, que tinha o intuito de chamar atenção para o genocídio em Gaza e era organizada por uma série de grupos apoiantes da causa palestiniana, incluindo o DIEM25 de Yanis Varoufakis, antigo ministro das Finanças da Grécia, que também tem expressão na Alemanha. A polícia enviou 930 elementos para este congresso.
A televisão alemã descreve que, aquando da intervenção em vídeo de Salman Abu Sitta, a polícia cortou a electricidade e pediu aos cerca de 250 participantes que saíssem do evento. Abu Sitta foi expulso da Palestina em 1948 e é actualmente o presidente e fundador da Palestine Land Society em Londres, que se dedica à documentação das terras palestinianas e do seu povo, e é um apoiante do direito de retorno dos refugiados palestinianos.
A polícia de Berlim afirmou que “foi projectado um orador que está sujeito a uma proibição de actividade política”, acrescentando que “existe o risco de que um orador que, no passado, tenha feito comentários antissemitas e glorificado a violência seja repetidamente mostrado em vídeo”, explicando que “por esse motivo, a reunião foi encerrada e proibida também no Sábado e no Domingo”.
O reitor da Universidade de Glasgow, Ghassan Abu Sitta, um cirurgião de ascendência britânica e palestiniana, tinha uma intervenção agendada no evento, mas foi proibido de entrar na Alemanha quando chegou ao Aeroporto de Berlim, segundo declarou à agência de notícias Associated Press.
“Intolerável”, afirmou Kai Wegner, autarca e patrono da Berlin Freedom Week & Conference, sobre o facto deste congresso se realizar na sua cidade.
E por falar em intolerável, o que dizer sobre a manifestação, em Berlim, no dia 15 de Maio, para assinalar o 77º aniversário do Dia da Nakba, evento trágico que resultou na expulsão e limpeza étnica dos habitantes da Palestina?
A polícia de Berlim disse que um dos seus elementos foi violentamente atacado por manifestantes, afirmando que o agente em questão foi arrastado para a multidão e deliberadamente atacado. No entanto, estas alegações foram desmentidas depois de uma análise vídeo por parte da Forensis, citada pela “Al-Jazeera”, que aponta para o polícia em questão como o agressor.
Consulte aqui a análise – as imagens são violentas e podem ser perturbantes –, que parece indicar que foram as acções de violência do agente para com manifestantes, incluindo uma mulher, que resultaram nas suas lesões.
O “No Comment” da “Euronews” também ilustra a actuação da polícia de Berlim no dia 15 de Maio de 2025. Para ver clique aqui.
Em Agosto de 2024, uma juíza de Berlim condenou uma activista pró-Palestina por ter proferido a frase “From the River to the Sea, Palestine will be Free” (“Do Rio ao Mar, a Palestina vai ser livre”), a uma multa de 600 euros. A jovem foi acusada quatro dias depois do massacre do Hamas no Nova Festival, a 7 de Outubro, indica o jornal “The Guardian”.
A “Euronews”, por sua vez, indica que dois europeus e um norte-americano ficaram em risco de serem expulsos da Alemanha depois de terem participado num projecto pró-Palestina na (o nome não podia ser mais apropriado) Free University, em Berlim.
As autoridades alemãs deram ordem a quatro estudantes para deixarem o país, ou correrem o risco de serem deportados, depois de estarem envolvidos num “sit-in”, acção de protesto que consiste em ocupar um local sem sair do mesmo, contra a ofensiva militar de Israel em Gaza.
O Departamento do Interior e do Desporto de Berlim, que tem responsabilidade sobre imigração, requereu às autoridades locais para retirarem a autorização de residência aos alunos, a meio dos procedimentos. Esta decisão foi tomada apesar das hesitações do departamento de imigração de Berlim em relação a expulsar cidadãos europeus. O Departamento do Interior e do Desporto de Berlim rejeitou estas objecções e avançou com o processo, tal como com o processo para retirar a autorização de residência aos alunos.
A “Al-Jazeera” também ilustra em vídeo a actuação da polícia alemã numa manifestação de solidariedade em Berlim. As imagens mostram um aparato quase metafórico, com uma série de polícias de choque, altamente equipados a escoltar uma manifestante idosa que tem tudo menos um ar ameaçador, a fazer lembrar as desproporções que se vêem em Gaza, em modo Europa, claro.
A “TRT Global” também publicou um vídeo de uma jovem no chão, rodeada de polícias, com o joelho de um deles sobre a sua cabeça e pescoço. Para ver – as imagens são violentas e podem ser perturbantes – clique aqui.
E voltando a Berlim, como se classifica, em bom português, a iniciativa de criar uma semana dedicada à liberdade quando as forças de segurança nesta mesma cidade arrastaram uma idosa que manifestava a sua solidariedade, colocaram o joelho na cabeça de uma mulher em protesto e espancaram indiscriminadamente aglomerados de pessoas, incluindo mulheres? Hipocrisia.





