Foi já há mais de 20 anos que o atual presidente da China, Xi Jinping, então secretário do Partido na província de Zhejiang, afirmou pela primeira vez a frase que viria a moldar toda a política ambiental do gigante asiático: «Montanhas verdes e águas limpas são montanhas de ouro e prata».
O que parecia, na altura, uma afirmação local sobre desenvolvimento sustentável viria a transformar-se, anos mais tarde, na pedra angular da chamada civilização ecológica. Desde então, Xi repetiu-a inúmeras vezes, quer em discursos nacionais como internacionais – não como metáfora poética, mas como princípio económico: a natureza preservada é tão valiosa como os ativos económicos tradicionais. Esta frase é o ponto de partida para perceber o que a China já está a construir e o que poderá vir a liderar.
Paradoxalmente, a China continua a ser a maior emissora mundial de CO₂ e o país que mais depressa está a construir soluções para as reduzir. É uma contradição tão desconfortável quanto reveladora: enquanto muitos, sobretudo por ignorância, continuam presos à imagem da China do carvão, o país prepara a infraestrutura, os modelos de cidade e a doutrina política que o podem colocar na liderança da economia verde global. Quando der o «clique» – e tudo indica que o momento se aproxima – a velocidade e a escala chinesas podem ultrapassar, sem grande esforço, as economias mais avançadas. Ao mesmo tempo, o carvão continua a ser assumido como base do sistema energético, indispensável para garantir estabilidade. Cada vez mais, porém, essas centrais funcionam como capacidade de reserva e estabilização da rede, enquanto o crescimento da produção elétrica assenta sobretudo nas energias solar, eólica, hídrica e nuclear – um sinal claro de que a transição chinesa não é uma rutura, mas uma transformação gradual e pragmática.
Efetivamente, desde 2018, a sustentabilidade deixou de ser um folheto político secundário e passou a ser política de Estado. A chamada «civilização ecológica» passou a integrar formalmente a estratégia de modernização da China, inscrita no pensamento político de Xi Jinping. Neste enquadramento, a frase «montanhas verdes e águas limpas são montanhas de ouro e prata» deixou de ser apenas uma imagem poética para ganhar peso como orientação económica. Desde que a apresentou, em 2005, Xi tem voltado a ela repetidamente — como forma de afirmar que a proteção do ambiente não trava o desenvolvimento, antes o sustenta no longo prazo.
Com esta linha estratégica, a China definiu metas claras: atingir o pico de emissões antes de 2030 e alcançar a neutralidade carbónica até 2060. Mais recentemente, aponta também para uma redução das emissões totais entre 7% e 10% até 2035. A par disso, estabeleceu objetivos ambiciosos para as energias não fósseis — acima dos 30% do mix energético — e para a expansão das renováveis, que poderão atingir cerca de 3.600 GW na próxima década. Está em curso a construção do maior sistema de energia limpa do mundo, apoiado por instrumentos como o mercado nacional de carbono e por políticas de eficiência energética em larga escala. Hoje, cerca de 85% da nova capacidade elétrica instalada globalmente corresponde a energias renováveis — um sinal de que a transição deixou de ser apenas uma intenção. Ao mesmo tempo, a estratégia energética chinesa tem vindo a diversificar-se, com maior aposta na hídrica e na nuclear, complementando o crescimento da solar e da eólica.
Na preparação da COP30, a China deu um sinal adicional de reforço da sua ambição climática. Xi Jinping comprometeu-se a que a nova Contribuição Nacional Determinada (NDC) passe a abranger todos os sectores económicos e todos os gases com efeito de estufa, e não apenas o CO₂. Trata-se de um passo pouco comum a nível global, que alarga o alcance das metas a áreas como a indústria pesada, a agricultura, os edifícios, os resíduos e os gases industriais de elevado potencial de aquecimento.

Esta expansão setorial é vista internacionalmente como um «sinal decisivo» da preparação da China para a trajetória de neutralidade carbónica até 2060 – e reforça a ideia de que, quando acelerar verdadeiramente, poderá ultrapassar rapidamente as economias mais avançadas. A transição energética chinesa está também profundamente ligada à segurança do sistema: a instabilidade internacional reforça a aposta em fontes domésticas e diversificadas, reduzindo a exposição a choques externos. Paralelamente, o Governo aprovou recentemente o Plano de Ação para o Pico das Emissões (2026-2030), que operacionaliza esta estratégia e prepara o cumprimento das metas definidas para a próxima década.
Tudo isto revela uma característica essencial do processo chinês: quando decide mudar, muda em grande escala. E essa escala transforma o mercado global. Foi assim com os painéis solares, com as baterias, com a mobilidade elétrica – e está a ser assim com as tecnologias que vão moldar a próxima década. Hoje, essa escala já é visível: a Ásia concentra cerca de três quartos da nova capacidade renovável instalada globalmente, numa expansão fortemente impulsionada pela China.
Laboratórios verdes espalhados pelo país
A prova de que a transição chinesa não vive apenas em discursos está nas cidades e regiões que hoje funcionam como verdadeiros laboratórios de inovação sustentável. Shenzhen é talvez o exemplo mais icónico: tem a totalidade da sua frota de autocarros e táxis elétricos, uma realidade que nenhuma outra megacidade global alcançou. Hangzhou combina tecnologia, turismo e sustentabilidade com o seu «City Brain», um sistema integrado de inteligência artificial que gere tráfego, energia e fluxos turísticos de forma coordenada. Hainan, por sua vez, está a transformar-se numa zona piloto de turismo low-carbon, com metas obrigatórias para hotelaria e políticas agressivas de energia limpa e mobilidade elétrica.
Noutras regiões, a inovação é igualmente estrutural: Xiong’an, a cidade construída de raiz para ser zero-carbon, demonstra o tipo de urbanismo que o país quer desenvolver no futuro. Yunnan aposta num modelo de ecoturismo associado à proteção ecológica e às comunidades locais. Xangai lidera em edifícios verdes e aviação sustentável, enquanto Pequim, em apenas uma década, conseguiu reverter níveis históricos de poluição atmosférica. E há ainda Qinghai, onde vastas áreas já operam com eletricidade 100% renovável – um laboratório de alta altitude para a energia limpa do futuro. No terreno, essa escala é igualmente evidente em projetos como a construção da maior barragem hidroelétrica do mundo ou o desenvolvimento de centrais solares em condições extremas de altitude, demonstrando a ambição tecnológica associada à transição energética chinesa.

E Macau já dá os primeiros passos
Também Macau, apesar da escala reduzida, entrou nesta equação. O território tem vindo a reforçar gradualmente o seu enquadramento legal em matérias como resíduos, plásticos, emissões e eficiência energética, procurando alinhar-se com as metas ambientais da Grande Baía e com a própria estratégia chinesa. O setor turístico – responsável por grande parte da pressão sobre os recursos locais – está a ser progressivamente enquadrado por normas ambientais mais rigorosas, e há sinais claros de que o Governo da RAEM começa a preparar o destino para uma visão mais sustentável. Para Portugal e para o mundo lusófono, isto pode abrir portas à cooperação técnica, à formação e a modelos de certificação avançados.
A China ainda é, sim, um gigante que polui – mas é também o gigante que está a construir, com uma capacidade de mobilização de recursos e execução muito difícil de replicar noutras economias, o ecossistema industrial, urbano e tecnológico que sustentará a transição energética global. O país não está «a começar a pensar» na sustentabilidade: está a montá-la, a financiá-la e a torná-la estruturante. A expansão das energias renováveis está hoje fortemente concentrada em tecnologias como a solar e a eólica — responsáveis por quase toda a nova capacidade instalada — precisamente aquelas onde a China consolidou uma posição dominante ao longo da última década.
E talvez percebamos, mais tarde, que enquanto insistíamos na imagem da China do carvão, o país avançava discretamente na direção do futuro. A Ocidente, talvez haja uma lição a aprender. Ao mesmo tempo, a transição energética global continua marcada por fortes desigualdades regionais, com várias economias ainda à margem desta transformação, o que reforça a importância de acelerar o investimento e a cooperação internacional.
Paulo Brehm
Consultor de Sustentabilidade
Presidente do Conselho Consultivo da ACTEP – Associação de Turismo Chinês em Portugal
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