O Conselho Mundial de Viagens e Turismo, WTTC, manifestou preocupação em relação à proposta de aumento de taxas aplicadas a cruzeiristas por parte de Barcelona, afirmando que pode “debilitar a competitividade da cidade e ter consequências não desejadas para a economia local”.
O World Travel & Tourism Council (WTTC), que representa o sector privado do segmento de viagens e turismo, através da sua presidente e CEO, Gloria Guevara, indicou que “apesar de compreendemos os complexos desafios implicados pela gestão de um destino de classe mundial, a proposta de aumentar o imposto turístico aos passageiros de cruzeiro de curta estadia pode situar Barcelona numa posição de desvantagem competitiva em relação a outros portos no Mediterrâneo”.
Guevara, que em nada tem que ver com o herói argentino celebrado em Cuba além do apelido, continuou, afirmando que “Barcelona conseguiu um êxito extraordinário ao longo dos anos, consolidando-se como líder mundial em turismo. No entanto, preocupa-nos que estes importantes feitos, juntamente com os amplos benefícios económicos que geram para a comunidade local, podem ser involuntariamente prejudicados por este aumento”.
A presidente indica que o WTTC reuniu provas noutros destinos que “mostram que os aumentos súbitos de impostos raramente produzem os resultados desejados”, e, anedoticamente, deu como exemplo um caso hipotético e fictício, “por exemplo, a economia do Reino Unido poderia perder pelo menos 14 mil milhões de libras de despesas de visitantes internacionais se fosse introduzido um imposto diário de 10 euros”.
Sobre Barcelona, indicou que “os custos adicionais para os visitantes de Barcelona provavelmente vão reduzir a contribuição económica global da indústria de cruzeiros, à medida que os turistas ajustam os seus hábitos de consumo em terra”, afirmando, e saltando uma série de processos, que “isto por sua vez, poderá levar à perda de emprego, impactando o emprego local e a criação de vagas no sector dos serviços da cidade”.
Em relação a esta situação do impacto dos cruzeiristas na economia local, o Ayuntamiento de Barcelona especifica que o segmento dos cruzeiros cria um impacto limitado, enquanto contribui para a saturação turística da região.
Mas Guevara afirma que “numa cidade como Barcelona – um dos principais portos de embarque de cruzeiros do mundo, recebendo anualmente cerca de 4 milhões de passageiros e gerando um gasto médio local de aproximadamente 255 euros por passageiro, entre os mais elevados do mundo – o impacto mais alargado de tais medidas poderá ser particularmente significativo, não só em termos de procura turística, mas também na contribuição fiscal que sustenta as economias locais e regionais. Só a indústria de cruzeiros contribuiu com 11,9 milhões de euros em impostos para a Câmara Municipal de Barcelona em 2024”.
Um argumento que ignora por completo que o aumento da taxa se verifica apenas para cruzeiristas que fazem escalas inferiores a 12 horas, e que não é aplicada a embarques e desembarques.
A presidente do WTTC cita pesquisas da CLIA, Cruise Lines International Association, que defende os interesses das empresas relacionadas com cruzeiros, indicando que 60% deste tipo de viajantes regressa a destinos que descobriram pela primeira vez em cruzeiro. Um argumento que pode entrar em contrataste com a afirmação anterior de Guevara, que classifica Barcelona como um destino de classe mundial e não propriamente um destino a ‘descobrir’ num cruzeiro no Mediterrâneo.
“Ao mesmo tempo”, continuou a presidente e CEO do WTTC, “Barcelona já está a registar um declínio mais generalizado no número de viajantes internacionais devido às pressões económicas globais. As tendências recentes apontam para uma procura mais fraca, incluindo uma queda de 3,3% no número de passageiros de cruzeiro em trânsito em 2024”, indicando, por outro lado o crescimento das despesas internacionais na cidade em 2,7%, mas classificando este crescimento dos gastos dos turistas como estando “atrás de outros grandes destinos europeus”.
Esta análise, atribuída à Oxford Economics, aborda apenas o crescimento percentual e não o absoluto, por exemplo, se o crescimento dos gastos dos turistas for de 2,7% em relação a um ano no qual o gasto médio foi 20 euros, no ano em questão o crescimento absoluto é de 2,7 euros para um valor absoluto de 22,7 euros, ao passo que se num destino o crescimento for de 50%, mas o gasto médio no ano de comparação for de 2 euros, o crescimento absoluto, é de 1 euro, para um valor absoluto de 3 euros.
Gloria Guevara vai mais longe e indica que “a introdução de novas barreiras pode gerar um efeito dominó indesejável em todo o ecossistema turístico, impactando desde os fornecedores locais aos operadores de transporte”, acrescentando que “acreditamos que o crescimento sustentável a longo prazo em qualquer grande destino depende de um planeamento eficaz e proactivo, bem como do profundo envolvimento de todas as partes interessadas, públicas e privadas”, sugerindo que “em vez de implementar estes impostos, recomendamos que o governo local trabalhe em estreita colaboração com o sector do turismo para encontrar soluções equilibradas que apoiem tanto as metas de sustentabilidade da cidade como os seus interesses económicos vitais”, colocando ao mesmo nível dois conceitos com importância social e ambiental distintas.
O que Gloria Guevara parece esquecer é que não há crescimento infinito, seja sustentável ou não, numa cidade que tem a característica de ser finita, sendo que a sua sugestão não parece abordar as comunidades locais, e diz respeito apenas ao impacto na economia local, sem especificar os seus agentes além de “fornecedores locais” e “operadores de transporte”.
“Para este efeito, o WTTC está totalmente preparado para colaborar com todas as partes interessadas, locais e internacionais, relevantes, para ajudar a identificar o melhor caminho a seguir para Barcelona, actuando como parceiro para garantir que a cidade continua a ser um centro global próspero, competitivo e acolhedor”, esquecendo ou ignorando que se trata de uma cidade com habitantes e não um resort urbano, mas acrescentando que “com base nas evidências disponíveis, o futuro do turismo sustentável não pode ser construído sobre ajustamentos fiscais de curto prazo. Exige um planeamento robusto a longo prazo, consultas significativas com o sector de viagens e o envolvimento activo de todas as partes interessadas a todos os níveis”, continuou.
“Ao reunir o sector privado, as comunidades locais [finalmente mencionadas] e as autoridades governamentais”, equiparando o sector privado às comunidades que habitam as cidades e aos governos que as gerem, “os destinos podem cocriar estratégias abrangentes que protejam as infraestruturas locais sem desmantelar o motor económico que impulsiona a prosperidade e o emprego para a comunidade local em Barcelona”, continuou a presidente e CEO, finalizando que “esta abordagem ajuda a garantir que a cidade continua a ser benéfica tanto para os seus residentes como para os seus visitantes”, mais uma vez equiparando residentes a visitantes.
Veja: Barcelona quase triplica taxa para passageiros de cruzeiros com escala inferior a 12h
Saiba mais no site de turismo de Barcelona, aqui.





