O debate entre os presidentes do Turismo de Portugal e das entidades regionais de turismo do Centro, Porto e Norte, Alentejo e Algarve no Fórum Vê Portugal concluiu que a criação de produtos em articulação entre diferentes players é a chave para a distribuição do turismo pelo território português.
Com o tema “Turismo Interno – Desafios para Portugal”, o debate realizado ontem na Covilhã juntou o presidente do Turismo de Portugal, Luís Araújo, e os presidentes do Turismo do Centro, Pedro Machado, do Porto e Norte, Luís Pedro Martins, do Alentejo, Vítor Silva, e do Algarve, João Fernandes.
O presidente do Turismo de Portugal sublinhou a necessidade de haver estruturas ágeis e flexíveis no turismo, com um claro foco de cooperação, e que estas devem agir com base na satisfação dos clientes, dos trabalhadores, comunidades, empresas, entidades, entre outros.
Luís Pedro Martins, presidente do Turismo do Porto e Norte, afirmou que existe algo de diferenciador em relação a outros segmentos em Portugal. Para o dirigente, os diferentes presidentes e equipas que passaram pelas entidades, de uma forma ou de outra, acabaram por dar continuidade ao trabalho, sem grandes rupturas com os trabalhos das equipas anteriores.
A pandemia, segundo Luís Pedro Martins, trouxe uma grande mudança para o interior, que ainda é verificável, como é exemplo o crescimento de 15% do mercado doméstico neste ano, embora ainda abaixo do crescimento de 30% no que diz respeito ao mercado externo.
Em relação aos desafios relacionados com a captação de mercado interno para produtos turísticos nacionais, o presidente afirmou que além desta captação, há o desafio da sua distribuição, que passa pela qualificação e estruturação dos produtos no interior, que são também ferramentas para tirar pesos de zonas mais metropolitanas e direccioná-los para regiões mais interiores.
Vítor Silva, presidente do Turismo do Alentejo, afirmou que não considera necessário mexer no modelo de administração pública, com as cinco marcas para a promoção internacional, devido à sua eficiência, acrescentando que as marcas devem ser promovidas com a bandeira do Turismo de Portugal.
“Temos um país relativamente pequeno, mas com uma variedade de produtos, paisagens, gastronomia, etc, impressionante”, afirmou Vítor Silva, rematando que “não se encontra isto em mais lado nenhum”.
Quando questionado sobre o que é preciso fazer, afirmou que “é preciso é não fazer, não dar cabo deste modelo”, acrescentando que o Governo tem um programa de descentralização e que não será benéfico se forem colocadas rédeas no que tem sido desenvolvido. O dirigente acrescentou ainda que num modelo descentralizado, as ideias e a criatividade podem partir de diferentes entidades, ao invés de um modelo mais centralizado, onde estas tendem a partir da administração central.
João Fernandes, presidente do Turismo do Algarve, também acredita que o modelo está bem concebido e tem dado cartas, sendo que há a possibilidade para distribuir mais competências pelas regiões, sem ser necessário redesenhar as entidades e as suas estruturas. O dirigente deu como exemplo os licenciamentos para turismo, que não são da responsabilidade das entidades regionais, e que estas deviam ser incluídas na sua discussão, e não apenas convidadas por serem relevantes.
O presidente do Turismo do Algarve afirmou ainda que seria positivo redefinir as zonas de actuação das promoções, dando como exemplo Espanha, que pode ser tratada como um todo ou de uma forma diferente para os municípios mais próximos de Portugal.
Revisão do modelo de financiamento
Para Pedro Machado, presidente do Turismo do Centro, a criação do modelo actual, com as cinco entidades regionais, continua a ser uma boa aposta, em grande parte devido à promoção consistente dos diferentes produtos turísticos que Portugal tem, ao invés de uma promoção do mesmo produto com estratégias diferentes por entidades distintas.
“Só a Sardenha tem uma diversidade turística como a nossa”, afirmou o dirigente, alertando para que os bons indicadores internacionais da segurança, da boa percepção de saúde e da hospitalidade portuguesa, não sejam distorcidos por estratégias sectoriais.
Para o dirigente, a sustentabilidade deve ser uma aposta imediata devido ao crescente interesse, e até preferência, por parte dos turistas em relação a destinos que primam pelo conceito.
Em relação a alterações, o presidente do Turismo do Centro entende que o modelo de financiamento deve ser revisto, e que devem ser feitas alterações aos valores atribuídos às entidades regionais, e que estas englobem novas responsabilidades e competências nesta área.
Estruturar produto para aumentar receitas
Quando questionado sobre a existência de turismo sustentável quando medimos o turismo com base em número de visitantes e de dormidas, o presidente do Turismo de Portugal, Luís Araújo, sublinhou que a meta para 2027 é a de 27 mil milhões de euros em receitas, e que actualmente a marca está nos 21 mil milhões, com um crescimento de 44%.
O grande objectivo, de acordo com o presidente do Turismo de Portugal, é criar conteúdos para a distribuição dos visitantes pelo território, e nesse sentido estão a ser criadas diferentes opções, como parcerias intermunicipais, produtos de turismo literário, de arte contemporânea, arquitectura, entre outros produtos que passam por todo o território e que a sua promoção é feita em conjunto.
Luís Araújo afirma que o crescimento em receitas é um dos grandes objectivos, mas alavancado na estruturação de produtos, na criação de redes e para segmentos que valorizam este tipo de produtos, nomeadamente os mercados de longa distância (long-haul), que para o presidente do instituto é o mercado que mais valoriza este tipo de produtos.
O mercado de longa distância tem a característica de optar por estadas que vão além do city break de um, dois, três dias, e dessa forma acabam por ser mais propensos a aderir a estes produtos.
O presidente afirmou ainda que o foco deve estar no nosso serviço ao sector, e na cooperação entre as equipas, que acabam por trabalhar umas com as outras.
Quando questionado sobre a forma como é possível crescer, o presidente do Turismo do Porto e Norte, Luís Pedro Martins, deu como exemplo o pensamento estratégico do sector em 2023, com um aumento de 36% em relação ao número de hóspedes, um aumento de 40% em relação às dormidas, e de 54% no que diz respeito a proveitos. Desta forma é possível tirar uma conclusão positiva, visto que o crescimento é superior em proveitos do que em dormidas e número de hóspedes.
Luís Pedro Martins também sublinhou os mercados de longa distância, como o norte-americano, destacando que está a chegar ao Porto com a United Airlines e acusando a TAP de não ser relevante para a região no que aos mercados europeus diz respeito, mas que podia ser para o Brasil.
Excesso de turistas
Vítor Silva, do Alentejo, também afirmou que é importante crescer mais em valor do que no número de dormidas, mas acabou por ‘colocar rédeas’ no que aos números diz respeito, afirmando que também “é preciso descontar a inflacção e sermos realistas”.
“Não se pode crescer indefinidamente”, continuou o dirigente, explicando que o turismo é uma actividade que inclui o consumo de produtos, e que há situações em que o turismo não só não é sustentável, como é uma actividade predadora, como se passa em Veneza, em Barcelona e em Paris.
Este fenómeno, apesar de não ter a mesma intensidade, começa a sentir-se no Porto e em Lisboa, e segundo o presidente é preciso estar atento à situação. No caso do Alentejo, que é uma região de baixa densidade, que representa cerca de 4% do turismo nacional, e onde há produto para desenvolver e há cada vez mais investimento, é necessário questionar como se pode crescer, segundo Vítor Silva.
O presidente do Turismo do Alentejo salientou que o turismo de massas contraria a ideia de um turismo mais espontâneo, e que é preciso perceber se vamos continuar a receber o turista como um consumidor de serviços.
Em vez de olhar para o turista como um ser passivo, que está a receber as nossas experiências, olhar para o turista como um visitante que também pode partilhar as suas, deve ser uma opção a explorar. O dirigente deu ainda o exemplo de como um visitante que chega a uma aldeia pode gerar uma curiosidade colectiva em relação à sua presença.
Para Vítor Silva é necessário colocar as questões de “como queremos crescer?” e “até onde queremos crescer?”.
Por sua vez, João Fernandes, presidente do Turismo do Algarve, contrapôs no que ao turismo de massas diz respeito, mencionando um estudo realizado pela Universidade do Algarve, com uma amostra de 4.000 pessoas, onde não houve um único inquérito com o perfil de ‘turismofobia”. O dirigente relativizou também o uso da água da região para os campos de golfe, afirmando que apenas representa 6% dos recursos hídricos, ao contrário da agricultura, que chega aos dois terços.
Para Pedro Machado também se coloca o desafio de receber turistas que não se vêem como turistas, que não querem ser associados à pegada ou considerados intrusos, além de outras questões como a estada média baixa, a sazonalidade, a acessibilidade e a mobilidade, os recursos humanos, e o estigma de alguns territórios que ainda são vistos como territórios de poucas oportunidades para o sector.




