“TACV têm solução” — defende Armando Ferreira

29-03-2009 (16h01)

“TACV têm solução” é o título escolhido por Armando Ferreira, director geral da Soltrópico, operador que em 2008 levou a Cabo Verde 16.472 turistas portugueses, mais 7,8% que em 2007, a um comentário enviado ao PressTUR sobre a notícia que revela o teor da carta que o presidente da transportadora aérea cabo-verdiana escreveu aos trabalhadores da companhia, com o título: “Ou mudamos ou fechamos” — aviso do presidente da TACV aos trabalhadores.

O PressTUR publica de seguida, na íntegra, a opinião de Armando Ferreira. Para ler a notícia sobre a carta do presidente da TACV aos trabalhadores da empresa clique aqui.

TACV têm solução
— por Armando Ferreira
Trabalho há quase 20 anos com os Transportes Aéreos de Cabo Verde, e conheço a Companhia desde 1969, altura em que vivi em Cabo Verde 3 anos, e viajei algumas vezes nos famosos HS-748 (Hawker Siddeley) entre ilhas.
Os Transportes Aéreos de Cabo Verde, que provêm do Aeroclube de Cabo Verde, constituído na Praia em 1955, e foram criados no final de 1958, acabam de festejar os 50 anos, dos quais 17 anos antes da independência, e os restantes 33 depois.
De 1990 a 2003 a Soltrópico e os TACV mantiveram uma colaboração estreita, não só no negócio mas até na própria promoção de Cabo Verde na Europa, como destino turístico que despontava e se desenvolvia a bom ritmo.
Em todo este período tive oportunidade de apontar a Companhia como um bom exemplo de desenvolvimento e qualidade apreciável dos serviços que prestava, e os TACV acompanharam com coragem as necessidades de equipamento e a formação de recursos humanos que permitiram à Companhia dar resposta à necessidade de afirmação, interna e externa, do próprio País no sector, e à crescente procura que se foi registando.
Por volta de 2002/2003 começaram a evidenciar-se sinais preocupantes de uma deriva nas políticas e na estratégia adoptadas pela Companhia, de resto comum a outras vertentes da economia e da própria cultura cabo-verdianas, que eu resumo numa sede de protagonismo que bebe em algum exagero de orgulho nacional, e que fez aparecer manifestações de uma fuga para a frente pouco saudável, cujas manifestações mais notórias foram a busca inoportuna (substituindo-se aos melhores operadores no mercado) de uma solução própria da Companhia para assumir a operação turística crescente a partir dos mercados de origem para Cabo Verde e a convicção de que a Companhia devia tornar-se no pólo de promoção de Cabo Verde.
Este posicionamento começou a afastar a confiança dos parceiros de negócio em que podiam continuar a contar com os TACV como um parceiro fiável, pelo que tiveram que procurar soluções alternativas e de maior confiança para concretizarem as suas necessidades de transporte aéreo para Cabo Verde.
Foi o que sucedeu à Soltrópico, que, perante a recusa dos TACV de nos colocarem um voo dedicado, de que necessitávamos, procurou, conjuntamente com a Air Luxor, em 2003, resolver o problema do duopólio redutor TACV/TAP, através de diligências que culminaram com a assinatura pelos Presidentes dos dois países, a 31 de Março de 2004, do acordo de abertura do espaço aéreo ao tráfego comercial entre os dois países, permitindo-nos iniciar em 8 de Abril a primeira operação charter semanal de Lisboa para o Sal, depressa reforçada com voos a partir do Porto, logo no Verão desse ano, com resultados que todos vieram a reconhecer como muito positivos para a economia de Cabo Verde.
Apesar de a Soltrópico envidar todos os esforços para que tal solução não fechasse portas de colaboração entre as duas empresas, a Direcção da altura dos TACV decidiu extremar o seu posicionamento em relação ao até então seu melhor parceiro em Portugal, e vedar-lhe condições de programação turística quer nos seus voos regulares internacionais (entretanto franqueados a preços inferiores ao do nosso charter a todos os nossos concorrentes em Portugal) quer os de ligação às restantes ilhas do arquipélago, forçando-nos assim a lançar, em Maio desse ano, 2004, o Projecto Halcyon Air, que atravessou 4 anos de um processo de constituição pejado de armadilhas diversas, que só graças a uma enorme determinação chegou a bom porto em Julho de 2008.
Essa atitude de fuga para a frente e de tentativa de eliminação de iniciativas concorrentes ou complementares, terá sido fatal à Companhia, pois acelerou dinâmicas alternativas que poderiam perfeitamente ter sido integradas na própria dinâmica dos  TACV, se tivessem percebido na altura que a economia moderna é necessariamente aberta a parcerias complementares, se que vingar.
Ao contrário do que se lê quase sistematicamente nos comentários à gestão da Sterling Merchant Finance, chamada pelo Governo de Cabo Verde a preparar a privatização da Empresa, o Sr. Gilles Filiatreault iniciou em 2006 um excelente trabalho de rectificação à rota desastrosa de planificação dos TACV nos anos precedentes, e houve diligências para o estabelecimento de parcerias dinâmicas com algumas companhias aéreas, incluindo a própria Halcyon Air.
Infelizmente, o corporativismo conservador de alguns sectores do pessoal da Companhia, agarrados a privilégios e hábitos suicidas para a Empresa, aliado à manifesta incapacidade dos poderes instituídos para dar força às soluções de racionalização que se impunham e foram tentadas, desembocaram em mais um fracasso, desta vez demasiado grave e comprometedor para evitar o descrédito que transparece agora nas afirmações, aliás corajosas, do Presidente da Companhia, que advogam, 3 anos mais tarde, as soluções preconizadas em 2006 pelo Sr. Filiatreault, de downsizing em recursos humanos e outros custos, mas agora sem a componente dinâmica de um plano operativo abrangente como foi o da Sterling Merchant Finance, e devendo contar já com posicionamentos alternativos no terreno, que vieram dar resposta natural às necessidades que foram sendo geradas pelo mercado, o qual não esperou, como facilmente se pode compreender, por uma Companhia que se consumiu em sensibilidades e vícios internos, não sendo capaz de os corrigir em devido tempo.
Sou, porém, daqueles que acham que os TACV devem erguer-se e levantar a cabeça, começando por uma análise fina da situação real do transporte aéreo no terreno, e traçar uma caminho em diálogo com o mercado, quanto mais não seja para darem uma oportunidade às pessoas que integram os seus quadros e que demonstrem vontade e competência para lhe conferirem uma nova dimensão.
Julgo até estar seguro do rumo a seguir e do método para lá chegar: basta que os actuais responsáveis da Companhia se abram ao diálogo com todos os parceiros de negócio, como já deram algumas provas de quererem fazer. E que reposicionem a Companhia num novo puzzle que parece agora evidente, e que deve ter em conta a nova realidade da Macaronésia, por um lado; por outro lado, o eixo Angola/S. Tomé/Cabo verde; o eixo Brasil/Cabo Verde; as comunidades cabo-verdianas mais numerosas da Europa e da América; o crescimento da procura turística para Cabo Verde um pouco por todo o lado; e finalmente o vazio que no sector actualmente se verifica na vizinha África Ocidental…
Sei que é duro afirmá-lo. Mas era este mesmo, em traços largos, o plano do Sr. Filiatrault. Do meu ponto de vista, se houver a humildade de quem de direito de dar a mão à palmatória, há uma solução, laboriosa mas possível, quiçá brilhante…
Creio até poder acreditar que as partes estão disponíveis para avançar, aliás desde pelo menos 2006...

Share
Tweet
+1
Share
Comentários
Escrever comentário

Outras Notícias

Para que querem o meu email?

31-08-2014 (10h58)

Qualquer site de viagens ( Agencias, Hotéis, rent a car, etc) luta para ter um tráfego constante, i.e. bastantes visitas diárias e consultas aos seus programas e ofertas.

Portugal, turismo e inovação

06-08-2014 (16h52)

Portugal foi um país pioneiro na institucionalização do turismo na orgânica do Estado, há um século, e tornou-se um dos mais importantes países turísticos europeus. Os seus recursos naturais e culturais e os produtos e destinos turísticos próprios, reconhecidos nacional e internacionalmente, são aspectos estruturantes quando pensamos e falamos de como ultrapassar a crise actual. Um dos binómios fundamentais para a mudança é, seguramente, o turismo com a inovação. Mas como?

Turismo é “aposta segura” mas “necessita de uma atenção mais profunda”

05-03-2009 (16h53)

“Estamos a falar de «exportações», que correspondem a mais de cinco vezes às do maior exportador de Portugal – a famosa Quimonda”, sublinha Vítor Neto ao referir-se o montante de receitas externas geradas pelo turismo em 2008 e como essa notícia “foi menosprezada pela informação em geral”.

Vítor Neto no “Diário Económico”: O Algarve sem “mitos e ilusões”

07-08-2006 (12h37)

“O viajante arrisca-se a afirmar que o Algarve não é, de longe, a região da área do Mediterrâneo que está pior e, se existir inteligência, é  capaz de construir um desenvolvimento turístico sustentável e competitivo”, escreve hoje Vítor Neto, na sua coluna habitual no “Diário Económico”, em que aborda o “difícil” tema dos “mitos e ilusões” sobre a maior região turística do País.

Vítor Neto propõe reflexão sobre fenómeno low cost e turismo

24-07-2006 (13h33)

“O futuro do Turismo vai passar cada vez mais pela capacidade competitiva dos seus aeroportos, desde logo para as low cost”, defende Vítor Neto, empresário e ex-secretário de Estado do Turismo, na sua coluna publicada hoje no “Diário Económico”, sob o tema “Turismo, aeroportos e low cost”, na qual alerta que o fenómeno das low cost “é importantíssimo, contém enormes potencialidades, mas também desafios e riscos” e, por conseguinte, “exige um acompanhamento sério”.