Precisamos saber se o turismo é mesmo “desígnio nacional”

25-11-2005 (16h15)

Vítor Filipe ao presstur.com (3)

Porquê o painel “Agentes de Viagens em Defesa do Consumidor”?
Vítor Filipe: É um painel que eu também reputo de muito actual e interessante até pelos desenvolvimentos que se verificaram nos últimos tempos no capítulo do relacionamento entre os agentes de viagens e os consumidores, pois como toda a gente sabe fizemos um protocolo importantíssimo com a DECO. Será um painel moderado pelo Paulo Neves e onde vão estar presentes um agente de viagens que faz parte da direcção da APAVT e que tem também muito peso como operador turístico no nosso país, que é o comandante Pinto Lopes, a Directora Geral do Turismo, Cristina Siza Vieira, a DECO, com a Cristina Tapadinhas, e o Rui Colmonero, como advogado que conhece este sector como poucos e tem estado sempre presente na criação destas iniciativas da APAVT.
A nossa Associação tem sido um exemplo claro de que cada vez mais estamos ao serviço dos consumidores e de que estes sentem que as agências de viagens são um parceiro cada vez mais fiável quando pensam em viajar. O trabalho desenvolvido pelas direcções da APAVT, nomeadamente com a criação do Provedor do Cliente, que foi feita pelo meu antecessor, João Pombo, o protocolo com a DECO e as campanhas de publicidade que fizemos para os consumidores finais têm resultados. As estatísticas mostram que hoje os consumidores procuram mais as agências de viagens do que há uns anos, que as pessoas sentem-se cada vez mais seguras quando viajam pelas agências de viagens. Penso que este painel vai ser de certeza muito interessante, até porque este trabalho não se esgotou ainda.

E por fim mantém-se o painel com os representantes dos partidos políticos...
Vítor Filipe: É uma forma de sabermos o que pensam na verdade os políticos do Turismo e também de lhes dar cada vez mais a conhecer este sector importantíssimo para a economia portuguesa. Já temos confirmações do PS, que será representado por Braga da Cruz, do PSD, através de Mendes Bota, do CDS/PP através do Nuno Melo e do PCP, pelo Jorge Cordeiro. Estamos convictos de que o debate vai ser interessante, porque escolhemos um tema de que se fala há imenso tempo — “Turismo: Desígnio nacional?” — mas que precisamos saber se será realmente assim quando os governos anunciam estratégias e investimentos sem consultarem os principais interessados, ou seja o sector turístico, e nomeadamente os principais interessados, as companhias aéreas e agentes de viagens.

Refere-se ao novo aeroporto na Ota?
Vítor Filipe: Certamente. Depois da apresentação da decisão da deslocalização para 50 quilómetros da nossa capital é de vital importância para o sector que sejam concretizadas as acessibilidades prometidas e, principalmente, a existência de um shuttle que ligue o novo aeroporto à Gare do Oriente em 17 minutos, conforme disse o ministro Mário Lino. E acrescentaria que também é fundamental que as tarifas a praticar não venham a penalizar ainda mais os custos desta deslocalização e que haja atenção para as tarifas que irão ser praticadas aos muitos autocarros de turismo que circularão entre a Ota e Lisboa.

E ficou convencido com a apresentação do Governo?
Vítor Filipe: Direi que não totalmente, dado que não foram apresentados quaisquer estudos sobre o real impacto desta decisão para o Turismo. Aliás, com excepção do estudo da Roland Berger, o próprio Governo só agora veio dizer que já foi encomendado mais um estudo, à Neoturis...
Contudo, pensamos que é importante decidir. Os estudos que foram apresentados parecem comprovar que a vida útil do actual aeroporto é limitada e com poucas alternativas e o Governo afirmou tratar-se de uma decisão política irreversível.
Sendo assim, dado que existem verbas orçamentadas para a requalificação do actual aeroporto, o que entendemos importante é exigir mesmo que estas obras se iniciem de imediato porque vamos ter que o continuar a utilizar, no mínimo, por mais doze anos.

Portanto, considera importante avançar já com as obras na Portela...
Vítor Filipe: O aeroporto da Portela tal como está não serve os interesses do País, nem o dignifica, antes pelo contrário, e mais que nunca tem que ser alvo de uma intervenção que nos dê garantias de prestar uma qualidade de serviço, que hoje não existe, que nos permita desenvolver o Turismo.

Voltando ao tema “Turismo: Desígnio Nacional”. O que falta?
Vítor Filipe: Nós estamos a deixar de ser competitivos em muitas indústrias, e o que se assiste cada vez mais é à deslocalização e fecho de empresas no nosso País. Umas porque faliram por não conseguirem competir com os países de Leste e Extremo Oriente e outras porque são multinacionais que resolveram deslocalizar a sua produção para zonas onde o custo da mão de obra é mais barato, tal como há uns anos vieram para Portugal. E não nos podemos esquecer que esse fenómeno também já nos beneficiou por termos sido rotulados de país de mão de obra barata. Mas com o euro e a evolução da economia portuguesa isso acabou. E onde é que o nosso País se vai focalizar? Nós pensamos que deve ser no turismo. Mas têm que ser dadas condições para os empresários apostarem cada vez mais no sector. Porque não é possível, por exemplo, um grande grupo económico estar oito anos à espera de ver desbloqueado um empreendimento que vai criar imensos postos de trabalho e revitalizar uma zona que será importante, que é um empreendimento estruturante para o nosso turismo, principalmente para recebermos cada vez mais turistas de qualidade, porque o nosso turismo não pode competir por preço, onde certamente seremos ultrapassados por outros destinos. E com isto não estou a dizer que se abandone alguma oferta que temos para turismo de massas. Defendo é que a grande aposta tem que ser no turismo de qualidade e tem que ser realmente um desígnio nacional.

Ou seja, fala-se muito do turismo como desígnio nacional, mas não considera que o seja efectivamente...
Vítor Filipe: Sim, fala-se muito, seria importante que fosse, mas ainda não é. Há muita gente que me criticou e ao presidente da CTP pela nossa defesa de um Ministério do Turismo. Penso que quem o fez não percebeu que a criação de um Ministério durante um determinado período — nunca defendi que deveria ser um Ministério para sempre — corresponderia a uma constatação que é quase unânime de que o turismo é a actividade económica com maior potencial de futuro no nosso País. Ou seja, que durante um determinado período, enquanto as coisas não estiverem a funcionar da forma como todos desejamos, houvesse um Ministério, ou seja uma estrutura forte que pudesse resolver os problemas de forma mais célere. Porque o peso político de um Ministério é muito diferente de uma Secretaria de Estado e só não vê isto quem não quer.

Mas o próprio exemplo que citou do empreendimento que foi desbloqueado mostra que há políticas que estão a avançar...
Vítor Filipe: Há algumas coisas positivas, como os PIN’s — Projectos de Interesse Nacional, em que é muito positivo o que está a ser feito, porque realmente temos que acelerar. A pior coisa que podem fazer a um empresário é dizer-lhe “nim”. Porque é um limbo. Quando os empresários recebem um não rotundo, sabem que não podem avançar com o projecto. Agora quando a resposta é um “nim”, os projectos começam a ficar enrolados tempos e tempos. E, claro, há burocracias que deviam ser eliminadas das nossas leis.
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