“Portugal tem tudo para crescer”, mas precisa de mais condições – Gonçalo Sousa

09-03-2018 (17h02)

O director do hotel DoubleTree by Hilton Lisbon, Gonçalo Coelho de Sousa, considera que "Portugal tem tudo para crescer", mas precisa de criar condições, como ter mais capacidade aeroportuária e um novo centro de congressos em Lisboa.

“Seria bom que pensássemos mais no médio/longo prazo e não tanto no curto prazo”, preconiza o executivo, que salienta que o segundo aeroporto no Montijo “é uma solução para 20 anos ou menos, enquanto que a situação de Alcochete tinha capacidade para crescer até para se tornar o aeroporto principal daqui a uns anos”.

 

PressTUR: Considera que a recuperação da Turquia, Tunísia e Egipto vai afectar de alguma forma a procura por Portugal?

Gonçalo Coelho de Sousa: Diria que não. As perspectivas até ao final de 2019 são muito boas. Esses destinos do Norte de África e do Mediterrâneo têm muita instabilidade, conflitos militares, uma série de situações que as pessoas que procuram um destino turístico evitam. Quando marcam as suas férias e precisam de um voo de longo curso, marcam com antecedência para usufruir da melhor tarifa possível. Para as pessoas que vão fazer uma viagem de lazer para destinos longínquos, esse factor da estabilidade é muito determinante para a escolha do destino. E aí eu acho que Portugal vai ganhar a destinos como a Tunísia.

 

PressTUR: Portugal está melhor posicionado que esses países?

Gonçalo Coelho de Sousa: Na Grécia há muitas empresas ligadas ao turismo que estão a passar momentos financeiros muito complicados, algumas porque estavam alavancadas em dívida, outras porque não conseguem fazer face aos seus custos fixos. Em Portugal isso não se verifica. Muito pelo contrário. Estão a introduzir taxas turísticas precisamente para usufruir deste óptimo boom. E eu acho muito bem desde que seja bem aplicado. Precisávamos de um centro de congressos com outro porte, precisávamos de capacidade aeroportuária. Mas está tudo encadeado. Portugal tem tudo para crescer, mas também precisamos de criar condições para que tal seja possível. Acho que vamos continuar a beneficiar da instabilidade que se vive nos outros destinos concorrentes.

 

PressTUR: Estão a ser feitos esforços para beneficiar disso?

Gonçalo Coelho de Sousa: Seria bom que pensássemos mais no médio/longo prazo e não tanto no curto prazo. Por exemplo, a solução do Montijo é uma solução de curto prazo. Acho que deveríamos partir já para uma solução de médio/longo prazo, como é o caso de Alcochete. Em termos de dimensão, o Montijo está muito limitado, não tem capacidade para crescer muito mais. É uma solução para 20 anos ou menos, enquanto que a situação de Alcochete tinha capacidade para crescer até para se tornar o aeroporto principal daqui a uns anos. Coisa que não estou a ver que seja possível no Montijo. Parece que somos um país de curto prazo. Temos que ser mais estratégicos, nomeadamente em áreas que tenham que ver com a nossa sustentabilidade e em áreas que são mais importantes para o crescimento económico. E o turismo está a revelar-se, directa e indirectamente, determinante para a consolidação económica e para as exportações. Mas entendo que seja de curto prazo porque a ANA é que é responsável por suportar a solução do Montijo e isso não vai ter encargos para o contribuinte. Como contribuinte já fui tão penalizado por situações de ter que amparar soluções que não nos dizem respeito, nomeadamente na banca, que acho que não me importava de assumir um esforço para uma situação de médio/longo prazo e não para uma situação de curto prazo com final à vista.

 

PressTUR: Fala em curto prazo, mas só em 2022 é que há aeroporto no Montijo. E até lá como vai ser?

Gonçalo Coelho de Sousa: Até lá vai ser um desafio. Mas também acho que temos ter alguma noção das coisas. Por exemplo, se formos para Londres temos aeroportos a 60 quilómetros da cidade. Beja poderá ser uma solução para as low cost de forma provisória. É longe, mas tudo é negociável. O que nós não podemos é parar.

 

PressTUR: E a capacidade hoteleira? Não há oferta a mais em Lisboa?

Gonçalo Coelho de Sousa: Se partíssemos para um novo centro de congressos e para um aeroporto com maior capacidade eu acho que não seria suficiente, que precisaríamos de mais oferta hoteleira, nomeadamente se começarmos a competir em termos de congressos com Viena, com Berlim, até com Barcelona ou até com Las Vegas. Temos que pensar em grande. Las Vegas é dos únicos sítios no mundo onde e conseguem albergar assim de repente 35 mil pessoas. Agora, só faz sentido aumentar a oferta hoteleira quando tivermos condições para o justificar. Caso contrário só estamos a prejudicar o destino. Se houver mais oferta do que procura, os preços serão novamente prejudicados. Voltaríamos ao ciclo que tínhamos antes e isso seria muito triste. Deveríamos ter uma estratégia concertada, inclusivamente com as autarquias, por exemplo para não deixarem construir quando a ocupação média descesse abaixo dos 75/80%, permitindo apenas restauros, por exemplo, de edifícios devolutos. Caso contrário vai começar a prejudicar preço e depois é um caminho sem fim. É um percurso muito complicado porque demora anos e anos a reposicionar novamente os valores que temos hoje em dia, que não são ainda ideais mas com os quais já estamos bastante contentes.

 

PressTUR: Mas para continuar a receber turistas, além das condições, é preciso manter atractividade.

Gonçalo Coelho de Sousa: Nós temos que ser inteligentes. Temos que ter atractividade, mas também temos que ter algumas componentes âncora para atrair todos os segmentos. Por exemplo, Paris tem a Disneyland essencialmente para atrair o nicho de lazer e famílias. Porque não fazermos qualquer coisa que possa atrair também esse nicho? Porque não fazer um centro de congressos maior? Fazer outros pólos de atracção que permitam criar aquilo que estamos a conseguir agora, que é não haver quase épocas baixas. Isso é que é inteligente num destino turístico. Ter uma altura de congressos, uma altura para famílias, ter outra altura para grupos de excursões. Há espaço para todos os segmentos e para todos os pólos de atractividade. Mas temos que criar alguma sustentabilidade, não só pelo turismo, como também por responsabilidade social para com quem empregamos. Temos que dar alguma estabilidade de emprego para não tornarmos os nossos colaboradores em trabalhadores precários, a quem recorremos quando precisamos mas a quem não temos condições para suportar os salários quando não precisamos.

 

Continua:

Proximidade de outras atracções pode ser a chave para aumentar a estada média em Lisboa – director do DoubleTree by Hilton Lisbon

 

Para ler a entrevista completa clique:

Mercado norte-americano cresce todos os anos no DoubleTree by Hilton Lisbon – Gonçalo Coelho de Sousa, director

Portugal está a atrair a atenção de cadeias como a Hilton – director do DoubleTree by Hilton Lisbon

DoubleTree by Hilton Lisbon teve o melhor ano de sempre em 2017 – Gonçalo Coelho de Sousa, director

“Portugal tem tudo para crescer”, mas precisa de mais condições – Gonçalo Sousa

Proximidade de outras atracções pode ser a chave para aumentar a estada média em Lisboa – director do DoubleTree by Hilton Lisbon

Portugal tem que aproveitar a boa maré para se afirmar como destino turístico – director do DoubleTree by Hilton Lisbon 

 

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