“Estou satisfeito”, mas “já não fico eufórico com nada”

17-05-2016 (15h12)

Foto: Vila Galé
Foto: Vila Galé

Gonçalo Rebelo de Almeida, administrador do grupo Vila Galé (1)

O administrador do grupo Vila Galé, Gonçalo Rebelo de Almeida, põe-se à margem da euforia com que está a ser vista a evolução em alta da hotelaria portuguesa, sem deixar de perspectivar resultados bons este ano e de se declarar "satisfeito".

Em entrevista ao PressTUR, Gonçalo Rebelo de Almeida explica que, por um lado, vê “movimentos cíclicos que normalmente andam à volta dos oito anos” na hotelaria portuguesa, e que, por outro, há que ter em conta que na hotelaria não se pode aumentar produto imediatamente em resposta a uma evolução positiva da procura.

“Nós temos um número de quartos limitado e a procura é essencialmente concentrada no período de Maio a Outubro”, o que significa que a margem de melhoria da ocupação é limitada... e explica porque o crescimento se fará mais via preço.

 

PressTUR: Também está eufórico com o Verão que se avizinha?

Gonçalo Rebelo de Almeida: Como já levo 20 anos disto, já não fico eufórico com nada. Assim como também não fico demasiado deprimido com nada. Nestes 28-30 anos de actividade temos assistido aqui a movimentos cíclicos que normalmente andam à volta dos oito anos. O último ciclo positivo tinha sido 2007-2008 e 2008 é muito positivo quase até ao último trimestre. É já no final de 2008 que nós começamos a sentir o impacto [da crise económico-financeira mundial], nomeadamente dos mercados emissores europeus e logo do mercado inglês, que é o que tem mais peso. E depois assistiu-se a um período de queda grande que só veio a estabilizar em 2014. Nós tivemos um 2014 que já cresceu ligeiramente face a 2013, que inverteu um bocadinho a tendência, e o ano passado já foi bom. Se fosse replicar, e espero bem que não seja assim, 2015 seria o 2007 e 2016 o 2008 e, portanto, não posso estar muito eufórico...

 

PressTUR: Mas isso dá um ciclo de baixa muito prolongado...

Gonçalo Rebelo de Almeida: Dá, mas nem sempre foi igual. A grande queda dá-se em 2009 em relação a 2008. Esta é a análise que nós fazemos, porque temos um peso grande de mercado nacional em que não se sentiu logo o impacto todo em 2009, porque Portugal reagiu mais tarde à crise. E isto também pode estar a acontecer um bocadinho no Brasil. O consumidor final apercebe-se sempre mais tarde. Começam primeiro as empresas a sofrer e só depois começa a haver empresas a fechar e despedimentos. E até que isto se reflicta de uma forma generalizada no mercado leva algum tempo. Depois, em 2010, 2011 e 2012 foi mais o impacto do mercado interno, mas já com os internacionais mais ou menos estabilizados.

 

PressTUR: E agora?

Gonçalo Rebelo de Almeida: O mercado interno tem estado mais ou menos estável, mas também não se prevêem grandes crescimentos. Agora... estou satisfeito. Os resultados deste ano previsivelmente vão ser bons, embora nós também tenhamos uma limitação que é termos um produto de que não podemos aumentar a produção havendo mais procura. Nós temos um número de quartos limitado e a procura é essencialmente concentrada no período de Maio a Outubro. E se já temos boas ocupações nos hotéis, não conseguimos crescer, não temos mais quartos para vender. E portanto a única coisa que podemos fazer é mexer no preço. Então, previsivelmente o que vai acontecer é termos um impacto em termos de receitas melhor que o impacto em termos de taxas de ocupação, até porque a procura se mantém muito concentrada na época alta, embora tenha havido uma melhoria nos períodos de Inverno, ainda que assente em números baixos.

 

PressTUR: Em preço e ocupação?

Gonçalo Rebelo de Almeida: Em preço e ocupação.

 

PressTUR: O que tem que ver com as crises em destinos do Mediterrâneo ou não?

Gonçalo Rebelo de Almeida: Eu acho que tem. As coisas estão inevitavelmente ligadas. Há um conjunto de destinos que foi muito afectado e que recebia muitos turistas. Portugal e Espanha, pelo contrário, passaram uma imagem de tranquilidade e de segurança e acabam por beneficiar. E obviamente que à boleia disto, Portugal também gozou de uma notoriedade relativamente expressiva em termos de media internacional, com muitos artigos em jornais e em revistas à volta de Portugal e da qualidade do destino. O timing das duas coisas, Portugal estar a aparecer como um destino da moda e um destino apetecível e ao mesmo tempo ter uma notícia a dizer que os outros destinos são perigosos, eu nem preciso de dizer muito... A coincidência do aumento de notoriedade de Portugal e o desenvolvimento de novas rotas aéreas e o crescimento das bases, quer da easyJet quer da Ryanair em Lisboa e no Porto, e mesmo o aumento de rotas para o Algarve ou para a Madeira... tudo isto junto acaba por dar este resultado que é positivo. Agora, é positivo, mas o grande impacto é essencialmente em quatro regiões (eu não falo dos Açores porque não tenho números porque não é uma região que eu acompanhe muito, mas também terá tido algum crescimento) – Madeira, Algarve, Lisboa e Porto. Depois, Centro e Alentejo também crescem, mas crescem sempre muito menos e a procura é muito menor do que nas outras regiões.

 

Para ler a entrevista completa clique:

“Estou satisfeito”, mas “já não fico eufórico com nada”

Ainda há ‘produto’ no Algarve... mas há hotéis em que já há poucos quartos disponíveis

Vila Galé aposta em preservar ‘mix’ de preço, de nacionalidades e de canais de venda

Grupo Vila Galé prevê mais 8% a 9% de receita este ano

Resorts Vila Galé no Brasil estão com “crescimentos bons”

“Não deve haver semana nenhuma que eu não esteja a analisar um imóvel qualquer” em Lisboa

“Temos andado a ver outras coisas noutros estados, nomeadamente Alagoas”

Grupo Vila Galé prevê aumento de proveitos no Brasil em 5% a 6% este ano

“Queremos continuar a crescer um hotel por ano e manter mais ou menos este ritmo”

 

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