Calendário da solução aeroportuária para Lisboa “não está a ser respeitado”, alerta Raul Martins, presidente da AHP

11-11-2017 (12h08)

"O Governo não está a seguir o calendário que estabeleceu para em 2020 termos um aeroporto" complementar ao da Portela, critica o presidente da AHP, Raul Martins, em entrevista ao PressTUR a propósito do próximo Congresso da Associação, a decorrer na próxima semana sob o tema "Descobriram Portugal. E agora?!".

O dirigente associativo não deixa ainda assim de defender que “a TAP tem que deslocar muito do seu tráfego de hub para o Porto”, ao mesmo tempo que realça que “as low cost foram muito importantes para fazer com que Portugal deixasse de ser periférico”.

A AHP - Hotelaria de Portugal, segundo avançou ao PressTUR, conta com 650 empresas associadas e tem crescido a uma média de 50 novos associados por ano, com um aumento em 12% em 2016 face a 2015.

 

PressTUR: Quem defendeu que o crescimento do turismo português foi feito muito à conta da crise no Norte de África, Egipto, Turquia…

Raul Martins: Errou!

 

PressTUR: Estamos na altura de comprovar isso...

Raul Martins: Por isso é que nós dizemos: Descobriram Portugal. E agora?! [tema do Congresso da AHP, de 15 a 17 de Novembro]. Agora temos que fazer aquilo para que o Congresso chama a atenção. Temos que consolidar o destino. E para isso não nos podemos esquecer de que Portugal é periférico. Deixou de o ser graças às low cost. As pessoas esquecem-se do papel que as low cost tiveram no crescimento do turismo em Portugal. Aquilo que se passou no Norte de África também teve reflexos em tudo quanto é o Sul da Europa, Itália, Espanha, Grécia, Croácia. Foi distribuído, não foi só em Portugal que houve esse benefício directo. Nós em relação a esses países tivemos as low cost, que foram muito importantes para fazer com que Portugal deixasse de ser periférico.

 

PressTUR: As low cost em Portugal, no entanto, representam metade do que representam em Espanha.

Raul Martins: Ainda têm por onde crescer, as que não falirem…

 

PressTUR: Mas aí há o problema da capacidade do Aeroporto de Lisboa.

Raul Martins: Primeiro que nada, porque é que o Aeroporto de Lisboa esgotou? Porque o turismo cresceu mais rápido do que aquilo que estava previsto.

 

PressTUR: E não houve incapacidade de previsão?

Raul Martins: As previsões… resultados só depois dos jogos. As previsões diziam que em 2020 é que iríamos atingir aquilo que estamos a atingir em 2017.

 

PressTUR: Quando olhamos os números ano a ano…

Raul Martins: Por exemplo, as estatísticas que nós estudamos baseiam-se em pressupostos que podem ser alterados. Podemos falar na estatística do que se passou e quando vamos para a frente temos que introduzir pressupostos. E, portanto, mal de nós se as previsões dessem todas certas. Não estávamos cá a fazer nada. Em 2020 é que era suposto atingirmos o que atingimos em 2017.

 

PressTUR: Mesmo assim a solução do aeroporto já vinha atrasada.

Raul Martins: Já, já podia ter sido tomada. Eles dizem é que não tiveram tempo. Esteve por pouco para ser tomada. Agora, o que nós queremos, ou exigimos, ou pedimos ao Governo é que não haja atrasos por isto, por aquilo e por aqueloutro. Concretizar. Era suposto no fim de Setembro estar concluído o estudo de impacto ambiental. Estamos em Novembro e não ouvimos falar de nada...

 

PressTUR: Havia a promessa de que até ao fim do ano davam uma solução para resolver até 2021.

Raul Martins: O que nos preocupa é que este calendário não está a ser respeitado. O Governo não está a seguir o calendário que estabeleceu para em 2020 termos um aeroporto. Com base naquilo que tem acontecido nos últimos quatro anos, estimamos que a oferta hoteleira na região de Lisboa vai aumentar cerca de 4% ou 5% por ano. Em quatro anos são 20%. Nós na região de Lisboa hoje temos uma ocupação de 75%, daqui a quatro anos está em 60%. Cuidado. Os investimentos na hotelaria são muito pesados, são de longo prazo e com 60% começamos a ter problemas. Alguma coisa tem que ser feita em termos compensadores. Sabemos que as companhias vão ter modelos de aviões diferentes para terem mais capacidade. O problema é o slot, tanto faz o avião. As companhias tentaram fazer isso. Agora, a TAP tem que deslocar muito do seu tráfego de hub para o Porto.

 

PressTUR: Mas isso mata o hub...

Raul Martins: Não mata o hub. Hoje em dia 30% dos passageiros que passam em Lisboa não ficam em Lisboa. E desses, quase cerca de metade vão para o Porto ou para o Algarve, mas basicamente para o Porto. É muito.

 

PressTUR: É muito, mas isso só é possível porque há hub em Lisboa. Sem hub em Lisboa esses 15% não vão. Há um exemplo paradigmático em Espanha. Há a Iberia, que é duas ou três vezes maior que a TAP, e o Aeroporto de Barcelona, que é duas ou três vezes maior que o de Lisboa, e só há um hub, não há dois...

Raul Martins: Mas Barcelona tem três aeroportos, dos quais dois funcionam.

 

PressTUR: Estamos a falar só de El Prat.

Raul Martins: Pois, mas dois funcionam. E um é praticamente para as low cost. Quando nós dizemos que Barcelona não é um hub, não é um hub tão grande como o outro.

 

PressTUR: Não é um hub da Iberia.

Raul Martins: Mas se quiser voar por exemplo para a Croácia ou para certas zonas da Europa, se passar por Barcelona tem boas ligações.

 

PressTUR: Sim, mas não é hub da Iberia.

Raul Martins: Pois, não é. Mas tem exemplos. A Delta acaba de anunciar um voo Porto – Boston.

 

PressTUR: E a TAP tem voos do Porto para Newark, Rio de Janeiro e São Paulo...

Raul Martins: Tem que ter mais.

 

PressTUR: Mas isso não faz um hub.

Raul Martins: Não faz um hub, mas há trânsito que vinha por Lisboa que passa a ir pelo Porto.

 

PressTUR: Mas já houve tempos em que a TAP tinha cinco ou seis voos para o Rio de Janeiro, cinco ou seis para São Paulo, cinco ou seis para Nova Iorque e foi reduzindo porque não havia tráfego. O que significa que alguém falhou. A TAP, a promoção do Porto, a promoção de Portugal…

Raul Martins: Eram outros tempos. Enfim, mas alguma coisa terá que se fazer para que não se reduza a ocupação dos hotéis em Lisboa. É isso que nos preocupa.

 

Continua:

“ATL terá que desenvolver soluções que façam prolongar a estadia”, defende Raul Martins

Redução da verba para promoção no Orçamento de Estado “é um contra-senso”

“Se temos qualidade, podemos ter melhor preço”, defende presidente da AHP

“Nós não estamos contra a Booking. Só estamos contra a cláusula de paridade” — presidente da AHP

“Tem que haver um controlo sobre o alojamento”, defende Raul Martins

Entre hotéis e alojamento local “a concorrência não existe”, defende presidente da AHP

AHP faz avaliação positiva deste Governo, afirma presidente da Associação 

Aeroporto de Lisboa e RJET são as prioridades da ‘agenda’ da AHP

Share
Tweet
+1
Share
Comentários
Escrever comentário

Outras Notícias

Aumento da taxa turística em Lisboa vai custear novo Centro de Congressos e expansão da FIL, diz Raul Martins

15-01-2019 (18h28)

O aumento da Taxa Municipal Turística em Lisboa servirá para custear a construção de um novo Centro de Congressos e a ampliação da Feira Internacional de Lisboa (FIL), revelou hoje o presidente da Associação de Hotelaria de Portugal (AHP), Raul Martins.

Presidente da AHP prognostica dois anos de queda de ocupação da hotelaria de Lisboa

15-01-2019 (18h12)

O presidente da AHP, Raul Martins prognosticou hoje que a hotelaria de Lisboa terá quedas de ocupação este ano e em 2020, baixando nesse período de uma estimativa de 82%, segundo os dados mais recentes da Associação, para 67%, pelo aumento da oferta e a continuação do estrangulamento do Aeroporto de Lisboa.

Câmara de Braga quer taxa turística de 1,5 euros/dormida ainda este ano

15-01-2019 (17h22)

A Câmara de Braga quer implementar uma taxa turística de 1,5 euros a partir do segundo semestre, estimando que a medida gere cerca de meio milhão de euros por ano, disse hoje o presidente da autarquia.

Hotelaria portuguesa sofre quebra de milhão e meio de dormidas dos principais emissores europeus

15-01-2019 (16h48)

A hotelaria portuguesa regista no fim de Novembro uma queda de aproximadamente 95 mil dormidas (-0,2%), que se deve principalmente à quebra por parte dos 12 principais emissores europeus, que são responsáveis por cerca de 75% das dormidas de não residentes e 53,5% das dormidas totais, e que estão com uma quebra de 1,54 milhões de pernoitas (-5%).

Turistas estrangeiros ficam sucessivamente menos tempo na hotelaria portuguesa

15-01-2019 (15h21)

Há pelo menos dois anos que está em queda a estada média de turistas estrangeiros no alojamento turístico português, com maior impacto este ano porque sem aumento das chegadas que compensem esses decréscimos no final de Novembro de 2018 verifica-se uma quebra de 885,9 mil dormidas (-2,2%).

Ultimas Noticias